segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Eros - O amor em Platão


O amor é campo controverso de entendimento, tanto no senso comum, como também na filosofia. Para os gregos, o amor é o elemento que move as coisas e as mantém unidas, em harmonia. Dele, assim tratou Parmênides, Hesíodo e Aristóteles. Neste sentido, o amor é essencial para a cidade, já que concorre para o bem e para o justo.

Platão, como revela Nicola Abbagnano em seu dicionário de filosofia, foi o primeiro a dar tratamento filosófico ao amor (2007, 39). Como problema filosófico, o amor é condicionante ao desejo de se ter o que não se possui ou de manter aquilo que se possui, ou seja, é a força movente do ser humano. Essa busca é movida pela beleza, na coisa amada, pelo desejo do bem, sobretudo, pela busca da sabedoria, que é a forma mais sublime de amar. Por fim, é a própria necessidade do homem de se imortalizar, aí representada na procriação, que remete novamente na busca do belo, para que se resultem proles harmoniosas, assim como se busca uma cidade e um governo harmoniosos, e, portanto, belos.

Nesse amor pelo objeto que está ausente é que se cristalizou a ideia do amor platônico, no desejo da forma bela, naquilo que se pode ser apreendido pelo campo do inteligível, isto é, pela inteligência, em suma, pela busca do conhecimento, o que diverge do senso comum de que o amor platônico seria o amor não correspondido que o amante carregaria por toda a sua existência, sem nenhuma evolução do espírito. Assim, em O Banquete, o Amor não é apresentado nem como belo, nem como feio, nem como humano, nem como mortal, mas como um intermediário que estabelece o contato entre as necessidades humanas, suplicadas aos deuses, e a ação divina, entregue aos mortais, sendo fundamental para a constituição da amizade, da justiça e da cidade, sobretudo, força motora que conduz os seres humanos em direção à felicidade e à nobreza da alma.

Assim, o Amor se apresenta na obra de Platão como o princípio estrutural da comunidade política e da paidéia, ou seja, da formação do povo grego, sendo entendido à luz da razão, de acordo com a própria estrutura contida em O Banquete. No final desta obra, Sócrates aparecerá para Alcibíades como a síntese desse ideal de Amor, já que desprovido das belezas do corpo, tem em sua alma a fonte mais profícua para o desenvolvimento do Amor que busca o conhecimento e a sabedoria, ou seja, representa o ideal do que é ser um filósofo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Bernardo Bertolucci

"Eu semprei sonhei encontrar uma mulher num apartamento vazio, uma apartamento de ninguém, um lugar sem personalidade, e fazer amor com ela sem saber quem é. Queria repetir esse ato sexual à exaustão. A ideia do Último Tango em Paris (1972), filme proibido em diversos países e também no Brasil, surgiu daí", revelou o cineasta italiano Bernardo Bertolucci.

Com uma atitude desafiadora, Bertoucci povoou seus filmes com o cenário histórico e político da Itália, por conseguinte, da Europa e do mundo, para isso, trazendo temas épicos e baseando-se em obras de grandes escritores da literatura, como o russo Fiódor Dostoiévski, quando produziu o documentário "Partner" (1968), baseado em "O Duplo", ou "O Conformista" (1970), cujo roteiro foi baseado no romance homônimo do escritor italiano Alberto Moravia, além de "Antes da Revolução" (1964), releitura do romance "A cartuxa de Parma", do francês Stendhal.

Bertolucci foi influenciado pelo pai, poeta e professor de História da Arte, e pela mãe, também professora, diferentemente do cineasta Federico Fellini, seu compatriota, flho de uma dona de casa e de um caxeiro-viajante, cuja infância se deu em uma cidade provinciana da Itália, Bertolucci rompeu com a moral vigente, tratando de temas "proibidos" para a época, como o incesto e a volúpia sexual, contribuindo para o já conceituado cinema italiano da década de 60.

Com "O Último Imperador" (1987), Bertolucci marca sua consagração no cinema mundial ao produzir uma película vencedora de 9 Oscars, incluindo o de melhor filme, melhor diretor, melhor música e melhor fotografia, além de conquistar os principais prêmios na Itália, apesar de angariar vários desafetos, já que pela primeira vez o cenário italiano estava fora de seus filmes (a partir de 1980, Bertolucci declararia que não gostava mais de seu país, por estar muito sujo e corrompido).
Em "Beleza Roubada", Bertolucci apresenta ao mundo a então incipiente atriz Liv Tyler (1977 - ), cuja estreia se deu no clipe Crazy, da banda Aerosmith, que tem como vocalista seu pai, Steven Tyler (1948 - ).

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Vidas Secas - Graciliano Ramos

Graciliano Ramos nasceu em 27 de outubro de 1892, no Estado de Alagoas, tendo uma infância difícil, juntamente com seus quinze irmãos. Foi prefeito de Palmeira dos Índios, onde parece ter começado sua carreira literária, dada a excelência com que escrevia seus relatórios. Acusado de participar do movimento comunista, foi preso, o que ensejou na publicação de Memórias do cárcere, o que remete ao livro Recordação da Casa dos Mortos, do escritor russo Dostoiévski, que trata das experiências de presos na Sibéria.
Vidas Secas, publicado em 1938, constitui, juntamente com São Bernardo e Angústia, a trilogia da obra-prima de Graciliano Ramos. O cenário de suas obras faz parte da vida do próprio autor, contudo, com uma enorme capacidade literária, que o faz um dos grandes escritores do mundo, Graciliano universalizou os ambientes, os temas e os personagens. Em Vidas Secas, a escrita contribui para o sentido do texto, unindo o plano da expressão com o plano do conteúdo, que remetem para a condição humana oprimida por determinadas circunstâncias naturais e sociais.
Graciliano Ramos era um crítico de seu próprio texto. Depois de concluir a obra, submetia-a a um processo de revisão que perdurava por anos. Antes de morrer, acometido pelo câncer, entregou a seu filho a responsabilidade de cuidar das publicações póstumas, revisar com cuidado algumas que não havia finalizado e rasgar todas as suas tentativas de poesia.
Vidas Secas é um ótimo romance para se apresentar aos jovens e adultos que se iniciam na literatura, já que de uma forma muito enxuta desenvolve temas afetos às maiores obras universais. Estruturalmente, foi classificada como um romance desmontável, já que é constituída de capítulos indenpendentes que não exigem uma sequência linear de leitura. Quanto ao enredo, trata de uma família de retirantes, Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e a cachorra Baleia, exposta a toda sorte de adversidade e opressão, que reinicia ciclos constantes em busca da sobrevivência.
Um dos capítulos mais marcantes do livro, se é que existe essa classificação, é a da cachorra Baleia, ser humanizado durante a narrativa, já que é dotada de sentimentos nobres, ao contrário do protagonista Fabiano, que é animalizado, por exemplo, quando depois de pensar em abandonar o filho, que cai cansado, deseja matá-lo. Baleia é morta por Fabiano, mantendo já ao fim de sua vida o sentimento de amor e os sonhos que a permearam ao longo da estória.
Graciliano Ramos, enfim, ao lado de Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis e, por que não dizer, João Cabral de Melo Neto, é um dos nossos maiores autores, cujo domínio e técnica da arte de escrever pode ser igualado aos grandes nomes da literatura mundial.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Mestre Chico, sempre Chico

Vi esse VÍDEO de Chico Buarque, e mais uma vez me surpreendo com a simplicidade e a sabedoria do grande mestre de nossa música. De forma extremamente leve e bem humorada, Chico fala da pequenez de um mundo movido pelo comentário da vida alheia, da banalização da informação (como a divulgação da morte de Amin Kadher, hoje, pela Record, com apresentadores chorando ao vivo, e ele correndo na praia... o jornalismo da Record atingiu seu ápice), dos julgamentos destrutivos, como, por exemplo, chamar alguém de "bêbado" ou de "velho". Chico faz sua arte como se fosse o cotidiano e ri do mundo do "espetáculo". Nós idolatramos Chico, mas, para ele, seu trabalho é apenas uma necessidade de criação artística. Chico não precisa ser o "Rei", já temos os Pelés e os Robertos, artistas vendidos para uma emissora de televisão, para ocupar esses postos. Sua alegria e seu espírito sempre jovens é contagiante, como a sua obra. Muitas pessoas que se julgam "deuses" devem aprender com esse grande artista.

sábado, 25 de junho de 2011

A Escola de Atenas

O quadro A Escola de Atenas, pintado pelo renascentista Rafael Sanzio, sob encomenda do Papa Júlio II, é um dos que mais me impressionaram durante os estudos de História da Arte, dada a carga de informações e conhecimento histórico e filosófico que nele está contido. Filósofos, matemáticos, cientistas e astrônomos conversam dentro de uma basílica. Ao centro, estão os filósofos clássicos, Platão (segurando sua obra Timeu) e Aristóteles (com seu livro Ética). Mais à esquerda de quem observa o quadro está Sócrates, o pai da filosofia, em posição que representa bem o seu método de filosofar, o da refutação e dialética, em que o interlocutor é conduzido ao caminho da verdade, após tomar conhecimento da sua própria ignorância. O próprio Rafael aparece no quadro, no canto direito do nosso olhar, olhando para nós, talvez, em uma atitude irônica, característica do período renascentista, já que pintou Platão ao centro, justamente aquele que contesta a atividade artística, já que se o mundo perfeito é o que está no campo das ideias e o que existe no campo terreno são cópias imperfeitas desse mundo ideal, a obra de arte seria uma cópia da cópia, ou seja, cópia da imperfeição.

Platão aponta para cima, justamente para fazer referência ao mundo inteligível, das ideias, enquanto que Aristóteles tem a palma da mão voltada para baixo, fazendo referência ao mundo sensível, do conhecimento pela experiência. Aristóteles chegou na academia de Platão com apenas vinte anos, e sem passar por outros mestres, contestou muito da tradição platônica, pois era inteligente demais para assimilar tudo passivamente. Dentre tantos belíssimos quadros, cheios de significações e beleza, escolhi A Escola de Atenas, também influenciado pelas aulas de filosofia, para iniciar outras postagens sobre essa nobre arte das pinturas.

sábado, 4 de junho de 2011

Quando iniciei o curso de História da Arte, confesso que meu espírito se assemelhava a um estudante de Letras sedento pela gramática: imaginava estudar os detalhes de cada pintura, de cada quadro. Os quadros estavam lá, mas nas paredes também havia música, teatro, cinema, escultura e arquitetura. Indiretamente, conheci a obra do músico alemão Karlheinz Stockhausen (1928-2007), que entre outras personalidades, como Aldous Huxley, Bob Dylan, Jung, Edgar Alan Poe, Fred Astaire, Marx e Marilyn Monroe, aparece na capa do álbum dos Beatles, de 1697.Esse músico clássico influenciou toda a música eletrônica do século XX, além de contribuir musicalmente para o rock'n roll, a ponto de ser chamado para participar da capa e disco dos Beatles. Sua grande inovação foi compor várias orquestras, simultâneas e independentes, cujos cojuntos de som retirava o público de seu eixo, aproximando-se muito da alma do rock, influenciando monstros da música, como Pink Floyd, e revolucionando as questões de ritmo e harmonia.

Enfim, Stockhausen rompeu os limites da música erudita, buscou inspiração em temas ocidentais, organizou concertos em que não havia notas fixas, regendo os músicos em um aparente improviso, passou meses se apresentando em dias sucessivos, sem repetir a sequência do dia anterior. O músico alemão polemizou, e com a sua irreverência artística e criativa, de só quem domina muito bem o que está fazendo, alcançou públicos diversos, alcançou-me, e eu, ainda muito distante da música clássica, pude aproveitar durante horas o resultado dessa incrível experiência musical. Viva a não certeza de todas as coisas, quando as dúvidas são bem realizadas!

Texto dissertativo

Estou tendo uma experiência muito direta com cursos preparatórios para vestibulares e concursos públicos, na elaboração de materiais, no planejamento e dentro das salas de aula, onde dialogo com centenas de rostos preocupados, olhando-me, buscando entender a gramática (normativa), o estudo textual, a literatura. Quando saio da sala, já estão se esquecendo do que eu disse, pensando em logarítimo, no revelo nacional ou na Independência dos Estados Unidos, ou não. Ensinar é uma arte constante de se alegrar e de se frustrar, mas viciante.


Neste ano, o vestibular da Fuvest estará mais difícil. A nota de corte será maior, as questões da primeira fase mais numerosas e um número reduzido de candidatos serão convocados para a segunda fase. Assim também ocorre com os concursos, cada vez mais concorridos.


Quando iniciei a pós-gradução em Ensino a Distância, pensei em criar um site que ensinasse as matérias de Letras, matriculei-me em um curso de Web Design, comecei a estudar linguagens de programação e acabei não os concluindo, por acúmulo de atividades. Hoje, terminada a pós, penso em voltar a colocar esse projeto em minhas prioridades. Por enquanto, publicarei algumas matérias de interesse para essas provas, que poderão ser acessadas no link concursos e vestibuares, à esquerda da página. Assim, inicio com o texto dissertativo.


Modelo e orientações para o texto dissertativo (cada parágrafo deve ser iniciado com espaçamento da margem).


A expansão dos direitos civis para os homossexuais
(título centralizado, primeira maiúscula, espaço de 1 linha)

As questões morais e religiosas são insuficientes para justificar a restrição aos direitos civis quando se trata dos homossexuais, já que (apresentar uma ideia e explicá-la, desenvolvê-la) na sociedade contemporânea as bases formadoras de comportamentos se enfraqueceram diante da multiplicidade e complexidade das relações entre as pessoas e delas consigo mesmas.
(o primeiro parágrafo é a introdução, deve conter o posicionamento do autor do texto e os elementos que serão desenvolvidos nos parágrafos intermediários, neste caso, questões morais, religiosas, sociedade contemporânea e mudança de comportamento).
Desde a Revolução Francesa (apresentação de um fato conhecido, pertinente e importante), o ser humano buscou a igualdade de direitos, embora, o rumo da sociedade capitalista tenha potencializado a desigualdade entre as pessoas, porém (promover a coerência), no campo civil, muitas vitórias ocorreram, no que diz respeito aos direitos de negros, crianças e mulheres, trazendo um novo cenário para os grupos considerados minoritários, dentre eles, os homossexuais (sempre trazer o tema para o texto).
(dividir as ideias nos parágrafos; não construir parágrafos muito extensos ou muito curtos no desenvolvimento)
A discriminação, muitas vezes (relativização) baseadas em dogmas morais e religiosos (desenvolvimento do que foi apresentado na introdução), passou a ser pensada e rejeitada por boa parte da sociedade, haja vista que a etnia, gênero, religião ou opção sexual (volta à questão do tema) não retiram a condição de ser humano, ou seja, de identificar-se com o outro, além disso, as atrocidades cometidas no início do século XX (apresentação de fato conhecido), com as duas grandes guerras e a constituição dos Estados nazi-facistas, demonstrou que estabelecer critérios de superioridade, fundamentado em falsas ideologias que tratam as diferenças de maneira pejorativa e perigosa, causa danos irreversíveis à vida em nosso planeta, inaceitáveis na sociedade contemporânea, já experimentada em relação aos conflitos entre os homens.
Superadas as questões morais e religiosas, advindas da tradição cultural, muitos países europeus e, mais recentemente, a Argentina (apresentação de caso concreto), aprovaram a lei que reconhece e garante os direitos civis para os homossexuais (tema), inclusive (fortalecimento da ideia), o direito à união estável, com isso (fortalecimento da ideia), demonstrando que é possível pensar as relações sociais de uma outra maneira, quando o objetivo é promover a igualdade e combater a discrimação, o que, no dia a dia, já se observa no Brasil, país propenso ao respeito e à multiplicidade cultural, étnica e sexual, em virtude da sua própria formação histórica, ainda que haja focos de resistência em alguns setores da sociedade.
Sendo assim (conclusão, último parágrafo, síntese do que foi exposto), promover um pensamento e comportamento que incentivem o respeito às diferenças e busque a igualdade de direitos é dever do poder público e da sociedade civil, que necessitam criar mecanismos que garantam esses direitos fundamentais, além de formar pessoas (mudança de comportamento, como apresentado na introdução) que se respeitem e que construam um mundo com muito mais paz e igualdade entre todos.

Considerações Gerais
- dissertar é expor uma ideia, argumentar acerca de um tema, com impessoalidade (não se deve utilizar primeira pessoa, eu acho que, eu penso que, na minha opinião), objetividade e clareza (selecionar o vocabulário empregado, linguagem padrão, evitar repetições e ideias vagas como: entre outros, etc), concisão (ideias diretamente relacionadas) e coerência (ideias que não se contradizem).
- fugir do tema, não abordá-lo ou se contradizer é erro grave.
- faça um texto rascunho, para depois corrigir a escrita (sintaxe, concordância, ortografia) e aprimorar o conteúdo (use os concetores de sentido).
- não use gíria, frases prontas, jargões, provérbios ou expressões populares.
- respeite as margens, escreva de forma legível, acentue e use corretamente a vírgula. Em caso de erro ortográfico, deixe a palavra entre parênteses, passando sobre ela um traço único.
- Divida o texto em introdução, desenvolvimento e conclusão; organize os parágrafos.
- Caso seja solicitado número de linhas, tenha como referência o limite de três para mais ou para menos.
- Não se esqueça do título, que deve contribuir para o sentido do texto (evite títulos simplistas, como: O aborto / A eutanásia / A fome).

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Irará (nascido da luz do dia)

Rousseau acreditava no homem puro em seu estado de natureza, dizendo que a sociabilidade o corrompe. Muitas das ideias deste filósofo foram confirmadas no sistema da vida contemporânea. No dia 15, deste mês, cheguei a Irará (nome que deriva de Arará, uma espécie de formiga vermelha), na Bahia. Apesar de ser uma cidade pequena do estado baiano, Irará tem nobres filhos, como o cantor Tom Zé, o pesquisador Emídio Brasileiro, Diógenes de Almeida Campos, um dos mais importantes paleontólogos do Brasil, o goleiro Dida e, para mim o mais ilustre de seus filhos, Antonio Ribeiro, meu pai.

Desbravada pelos padres jesuítas e por bandeirantes que buscavam ouro, a cidade teve como primeiros habitantes as populações dos índios paiaiás, aliás, de onde meu avô descende. Próxima a Feira de Santana, e a 137 Km de Salvador, a cidade conta com uma população aproximada de trinta mil habitantes, que sobrevivem basicamente da produção agrícola e do comércio local.

Em Irará, ao regressar à cidade após praticamente duas décadas, além de uma família maravilhosa, encontrei uma população hospitaleira, com uma rica tradição e traços marcantes de uma rica cultura, carregada pela simplicidade das pessoas e do lugar. Com o olhar de um outro, uma rápida passagem pode transformar a cidade em mais um pequeno vilarejo, iguais a tantos outros, contudo, como parte da cidade, sentimos a sua singularidade, aguçamos os nossos sentidos, para nos envolver com suas imagens, sons, odores e sabores.


Parece ser muito fácil viver em Irará, quando nos desprendemos da necessidade de transitar solitários nas multidões dos grandes centros, quando percebemos que não há uma cultura superior nas grandes cidades, quando deixamos de lado a ideia de que oportunidades de trabalho ou de estudo influenciam a nossa oportunidade de sermos seres humanos. Aliás, senti-me mais humano em Irará, em contato com o outro, com as estórias, com a natureza. Descendo para a Caroba ou para a Jurema, na roça, essas sensações se multiplicaram e intensificaram, já que ali a cultura planejada na massificação se enfraquece e se esvai.

Sem dúvida, voltarei a Irará, novamente de passagem ou para lá viver. Ao atingir meus objetivos, agora mais imediatos e reais, encherei outras malas, dividirei o que construí em mim, para multiplicar minhas experiências com as pessoas, e delas apreender muitas, iguais aos poucos dias em que pisei nas terras daquela cidade, tão bonita quanto Roma, Évora e Buenos Aires, porém, com uma dose a mais de oxigênio e de vida.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Os Deuses Malditos - A Estética Nazista

Os Deuses malditos, originalmente sob o título de La caduta degli dei (A queda dos deuses), foi dirigido pelo cineasta italiano Visconti Luchino, sendo lançado em 1969, na Alemanha e na Itália. Hitler e o nazismo estão em segundo plano em relação ao tema principal, que é a constituição da família Krupp, dona de um grande império de usinas de aço, que inclusive, sustentava o poderio do regime nazista. No interior dessa família, as mais condenáveis atrocidades ocorrem na luta pelo poder, desde assassinatos, adultérios, incesto, bebedeiras, orgias e pedofilia.

Compondo a trilogia alemã, juntamente com Morte em Veneza e Ludwig, o filme Os Deuses Malditos está além de ser considerados mais um sobre esse triste período da história. É uma representação estética da aristocracia, da construção e manutenção do poder, dos bastidores de um movimento ideológico. Divididos em SS e SA, as tropas fieis ao sistema dividem-se entre a elegância e a vadiagem, o luxo e o lixo. Outra tema recorrente é a homossexualidade, resultando em uma decadência política e moral, cujo ápice se dá durante o extermínio das tropas das SA, que representará o fim da própria família Von Essenbeck. Vale a pena ver.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ANIVERSÁRIO DO ÁGUIA NEGRA - 21 DE MAIO - TODOS CONVIDADOS!!!

Durante muitos anos, as motocicletas ocuparam o imaginário da mente das pessoas e as telas dos cinemas, em filmes como Easy Rider, The Wild One ou Diário de uma motocicleta. Os dias atuais furtaram muito desse romantismo, em razão do trânsito caótico, a falta de respeito com os outros, o tempo cada vez mais curto, os acidentes e os assaltos. Além de tudo isso, as imagens das pessoas que gostam de rock, as tatuagens, o estilo de se vestir, ainda são associados por muitos com a deliquência ou as drogas. E é exatamente o oposto de tudo isso que encontrei nos motoclubes, especialmente no Águia Negra. Nem todo motoqueiro é um motociclista, que é uma filosofia de vida.

Sediado em São Miguel Paulista, na Av. Dr. José Artur da Nova, equina com a Av. Oliveira Freire, o tradicional motoclube existe há mais de vinte anos. Com uma rigorosa doutrina de paz, união e força, sobretudo, respeito entre os integrantes e com o próximo, além dos encontros festivos são promovidas várias ações sociais, como por exemplo, a entrega de cestas básicas. Sinto-me muito bem no Águia Negra, local que já frequento há alguns anos, influenciado pelo meu pai (centro da foto), e agora me torno também um Águia Negra, para aprender sobre motos, música, lugares e bom convívio entre as pessoas. Estou construindo o meu colete com as coisas de que gosto, os países, os cantores, a cultura, enfim, minhas influências. É o início de mais uma jornada por essa vida, com a certeza de que tenho muito a contribuir, sobretudo, coisa demais para ver e aprender. Muito orgulho de ser um novo integrante desse honrado e respeitado motoclube, entre velhos e novos amigos. Como diz o nosso hino: Sou Águia Negra e honro meu Brasão Carrego a paz no coração Sou Águia Negra, rodando esse país O importante é ser feliz.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Os escritores malditos

Pietro Arentino (Itália, 1492-1556): autor de "Diálogo das Prostitutas" e conhecido no seu tempo como "secretário do mundo", Arentino influenciou muitos outras poetas, inclusive Bocage, onde é citado no soneto Já Bocage não sou... (Outro Arentino fui, a santidade manchei). Filho de um sapateiro com uma prostituta, desenvolveu uma obra mordaz e pouco moral, o que rendia um certo temor da nobreza da época. Caso atípico na história literária, foi protegido por esses nobres, inclusive, muito admirado pelo Papa Leão X e por outros importantes religiosos, que o protegiam, obteve um prestígio que lhe rendeu vida tranquila e fortuna. Além dos poemas, escreveu peças teatrais, comédias e tragédias. Seus versos, talvez pelo caráter pornográfico, são poucos estudados no Brasil, onde seus livros são muito raros.

Lord Byron (Inglaterra, 1788, 1824): exerceu grande influência sobre os poetas românticos, tendo uma vida extremamente atribulada, em razão das numerosas amantes (segundo alguns, a primeira delas teria sido uma babá, quando Byron tinha nove anos!), geralmente casadas, das dívidas (apesar de seu título de nobreza) e denúnicas de incesto, quando se enamorou da irmã, com quem teria tido um filho. Começou a publicar seus poemas ainda muito jovem, obtendo grande fama e prestígio, pela força e qualidade de seus versos, que tiveram grande repercussão na Europa. Em 1823, Byron se une às tropas gregas na luta contra a Turquia, vindo a falecer no ano seguinte, após sucessivos ataques epiléticos. Adorado na Grécia, seu coração foi retirado e enterrado em solo grego, enquanto que seus restos mortais foram enviados à Inglaterra. Sua vida e obra representou o ideal de liberdade do homem romântico, influenciando poetas em todo mundo, como Álvares de Azevedo, no Brasil. Além dos poemas, escreveu a peça "Dom Juan". Não são muitas as traduções e biografias do autor em português, sobretudo pela dificuldade de tradução dos poemas.

Arthur Rimbaud (França, 1854-1891): como Bukowski, a poesia de Rimbaud é sinônima da própria vida do poeta, característica esta comum aos escritores malditos. De caráter simbolista, sua poesia foi escrita quando ele era ainda adolescente. Rebelde, fugia de casa com frequência. Aliou-se à Comuna de Paris, onde, provavelmente, tenha sido abusado sexualmente por soldados bêbados, época em que passou a beber em grandes quantidades e marcar seu estilo com roupas velhas e cabelos longos. Após conhecer o poeta simbolista Paul Verlaine, tornaram-se amantes e passaram a viver uma vida desregrada, regada a absinto e haxixe. Ciumento e passional, Verlaine chegou a atirar contra Rimbaud, durante uma bebedeira. Por essa relação tumultuada, e com a interferência da própria esposa, Verlaine ficou preso durante dois anos. Rimbaud desenvolveu uma série de atividades, dentre elas, tráfico de armas na África, adquirindo um carcinoma no joelho, o que lhe causou a amputação da perna. Morre com apenas 37 anos, após o agravamento de seu estado de saúde.

Marquês de Sade (França, 1740-1814): escritor libertino, deu origem ao termo sadismo, que designa perversão sexual e prazer com a dor do outro. Tece críticas à sociedade urbana e à religião, propondo uma nova ordem moral. Dentre seus livros estão 120 dias de Sodoma, Justine, A Filosofia na Alcova e Diálogos entre um padre e um moribundo, a maior parte deles escritos enquanto esteve encarcerado. Pode ser considerado um dos pioneiros na discussão da Revolução Sexual e da prática homossexual, assunto que foi abordado pela pensadora Simone di Beauvoir no ensaio "É preciso queimar Sade?". Morreu no hospício, aos 74 anos.

Charles Bukowski (Estados Unidos, 1920-1994): nascido na Alemanha, mudou-se para Los Angeles ainda criança. Sua vida é sua obra. Sem afeto familiar e com o rosto deformado pela acne, viveu e escreveu sobre prostitutas, mendigos, bêbados e miseráveis. Tinha repulsa ao trabalho formal e se alcoolizava com frequência, porém, desenvolveu o gosto pela leitura. Escreveu em quartos de pensão, recebendo menos de R$ 200,00 por mês, alimentando-se uma vez ao dia. Com o passar dos anos, foi reconhecido e traduzido mundialmente, inclusive, sendo sua obra adaptada para o cinema. Entre seus livros estão Crônicas de um amor louco, Notas de um velho safado e O Amor é um cão dos diabos.