Depois de Dante, Boccaccio e Petrarca (embora este haja nascido fora da cidade), Florença viu crescer um dos grandes pensadores e literatos do mundo ocidental: Niccolò Machiavelli, que ao lado de Ludovico Ariosto e Tasso, representa o grande nome do século XVI na Itália. Injustiçado, mal lido e muito mal traduzido e interpretado, o termo maquiavélico incorporou as piores qualidades que um ser humano poderia vir a ter. Há alguns anos, na TV Cultura, um filósofo falando sobre Maquiavel, traduziu a passagem "più conveniente andare dietro alla verità efetualle delle cose", presente em "O Príncipe" como "mais conveniente conformar-me com a verdade efetiva das coisas", quando o contexto exigia "mais conveniente buscar a verdade efetiva das coisas". Maquiavel falava, neste momento, da dinamicidade dos fatos, como se pode ver, a tradução acabou com o pensamento do escritor italiano. Imputaram a Maquival a frase "Os fins justificam os meios", e como me dói na alma (e nos ouvidos), quando alguém faz essa citação, inventada por traduções mal realizadas e interpretações, como disse, descontextualizadas, já que não há essa passagem em nenhuma obra de Maquiavel, nem escrita, nem expressa como pensamento. Há poucos dias, na TV Aberta, um tal de Dr. Norberto Keppe, brasileiro, estudioso da psicosociopatologia, que diz conhecer marcas da sanidade e insanidade no indivíduo e o resultado disso no corpo social, por meio da psicanálise, metafísica e filosofia, disse que Maquiavel era egoísta, só pensava em si mesmo; tratava-se de uma psicopatia, e que acabou ficando louco. Quanta bobagem. Até pensei que nos próximos programas poderia se dizer que Nietzche foi a origem do nazismo, que Dostoiévski tinha epilepsia porque se julgava responsável pela morte do pai, que Bakhtin ouvia vozes, daí seus pensamentos sobre Dialogismo e Polifonia, que Graciliano Ramos odiava os homens, e tudo isso explicaria o que escreveram, quando a crítica literária, há muito, já discerniu autor, narrador e personagens (em todas suas singularidades e multiplicidades). Não se pode fazer uma leitura de Maquiavel tão simplista, recheada pelo senso comum, sem considerar, no mínimo, a História, a Filosofia, a Política e, acima de tudo, a Literatura, porque Maquiavel utilizava recursos estilísticos fecundos em suas escritas. É no conjunto, se possível, com a leitura em italiano, que se pode aproximar do que representou Maquiavel para seu tempo e para o mundo. Há muitos argumentos para se questionar o que foi dito a respeito de Maquiavel, contudo, basta dizer que ele foi o primeiro a pensar o conceito de Estado como conhecemos hoje e a dizer "os italianos", já que pensava na nação, e não em Florença, três séculos antes da unificação do país, embora fosse a Itália uma colcha de retalhos servindo a interesses externos. Para Maquiavel, os fins poderiam produzir os meios, jamais justificá-los. A grande confusão que se faz ainda quando se pretende interpreta-lo é julgar que ele tenha feito tratado de moral, não o fez: falava de fatos. Foi grande na prosa e no teatro. Maquiavel sofreu pelas mãos da tirania, da ânsia pelo poder, assim como Dante Alighieri, o maior poeta italiano, sofreu por questões políticas, sendo exilado perpetuamente da cidade em que nasceu e que amava. Diferente de outros de sua época, Maquiavel não teve direito a um epitáfio, sendo a injustiça corrigida somente no século XVIII, por um inglês, passando a constar em seu túmulo: Tanto nomini, nullum par elogium (Para tão grande nome, nenhum elogio é suficiente).sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Nicolau Maquiavel: anjo ou demônio?
Depois de Dante, Boccaccio e Petrarca (embora este haja nascido fora da cidade), Florença viu crescer um dos grandes pensadores e literatos do mundo ocidental: Niccolò Machiavelli, que ao lado de Ludovico Ariosto e Tasso, representa o grande nome do século XVI na Itália. Injustiçado, mal lido e muito mal traduzido e interpretado, o termo maquiavélico incorporou as piores qualidades que um ser humano poderia vir a ter. Há alguns anos, na TV Cultura, um filósofo falando sobre Maquiavel, traduziu a passagem "più conveniente andare dietro alla verità efetualle delle cose", presente em "O Príncipe" como "mais conveniente conformar-me com a verdade efetiva das coisas", quando o contexto exigia "mais conveniente buscar a verdade efetiva das coisas". Maquiavel falava, neste momento, da dinamicidade dos fatos, como se pode ver, a tradução acabou com o pensamento do escritor italiano. Imputaram a Maquival a frase "Os fins justificam os meios", e como me dói na alma (e nos ouvidos), quando alguém faz essa citação, inventada por traduções mal realizadas e interpretações, como disse, descontextualizadas, já que não há essa passagem em nenhuma obra de Maquiavel, nem escrita, nem expressa como pensamento. Há poucos dias, na TV Aberta, um tal de Dr. Norberto Keppe, brasileiro, estudioso da psicosociopatologia, que diz conhecer marcas da sanidade e insanidade no indivíduo e o resultado disso no corpo social, por meio da psicanálise, metafísica e filosofia, disse que Maquiavel era egoísta, só pensava em si mesmo; tratava-se de uma psicopatia, e que acabou ficando louco. Quanta bobagem. Até pensei que nos próximos programas poderia se dizer que Nietzche foi a origem do nazismo, que Dostoiévski tinha epilepsia porque se julgava responsável pela morte do pai, que Bakhtin ouvia vozes, daí seus pensamentos sobre Dialogismo e Polifonia, que Graciliano Ramos odiava os homens, e tudo isso explicaria o que escreveram, quando a crítica literária, há muito, já discerniu autor, narrador e personagens (em todas suas singularidades e multiplicidades). Não se pode fazer uma leitura de Maquiavel tão simplista, recheada pelo senso comum, sem considerar, no mínimo, a História, a Filosofia, a Política e, acima de tudo, a Literatura, porque Maquiavel utilizava recursos estilísticos fecundos em suas escritas. É no conjunto, se possível, com a leitura em italiano, que se pode aproximar do que representou Maquiavel para seu tempo e para o mundo. Há muitos argumentos para se questionar o que foi dito a respeito de Maquiavel, contudo, basta dizer que ele foi o primeiro a pensar o conceito de Estado como conhecemos hoje e a dizer "os italianos", já que pensava na nação, e não em Florença, três séculos antes da unificação do país, embora fosse a Itália uma colcha de retalhos servindo a interesses externos. Para Maquiavel, os fins poderiam produzir os meios, jamais justificá-los. A grande confusão que se faz ainda quando se pretende interpreta-lo é julgar que ele tenha feito tratado de moral, não o fez: falava de fatos. Foi grande na prosa e no teatro. Maquiavel sofreu pelas mãos da tirania, da ânsia pelo poder, assim como Dante Alighieri, o maior poeta italiano, sofreu por questões políticas, sendo exilado perpetuamente da cidade em que nasceu e que amava. Diferente de outros de sua época, Maquiavel não teve direito a um epitáfio, sendo a injustiça corrigida somente no século XVIII, por um inglês, passando a constar em seu túmulo: Tanto nomini, nullum par elogium (Para tão grande nome, nenhum elogio é suficiente).terça-feira, 10 de novembro de 2009
As ciências humanas...
Com as novas tecnologias, cada vez mais as pessoas se afastam do contato com o outro e o mundo vai ganhando novas formas de convívio. Nesse aspecto, as ciências humanas foram perdendo o lugar que deveriam ocupar, não somente nas áreas de conhecimento, mas também na vida cotidiana. É claro que quando se luta pela sobrevivência, nossa satisfação passa a ser somente imediata, perdemos a capacidade (e o interesse) da contemplação. É o próprio Todorov que nos alerta para essas transformações, já que até mesmo na França, país que depois da formação dos Estados nacionais tornou-se o centro cultural do planeta, os cursos de humanas vão perdendo cada vez mais espaço para outras áreas, afetas a essa "modernização". Pouco se fala, se diz, se reflete sobre Filosofia, Literatura, Sociologia, Antropologia, História... Cada vez mais esses grupos se restringem, a meu ver, grande contradição com o que se pode obter dessas ciências. Mas o resultado disso tudo está marcado em nosso dia-a-dia. Não há tempo para ler, para falar, para estar com as pessoas. Vivemos numa corrida frenética para se chegar a lugar algum. E se não estivermos atentos a isso, acabamos caindo na inevitabilidade das consequências. Agregar valores, conhecer e somar culturas, interagir, ensinar e aprender... o que somos se não seres em constante evolução? A maior conquista é estar sempre descobrindo que muito pouco se sabe sobre aquilo que achávamos muito saber, aí estaremos sempre receptivos a novos conhecimentos. E essa é a maior resposta que as ciências humanas podem nos oferecer. Aliás, fiquei extremamente contente em saber que a Unicamp tem um curso pioneiro de Estudos Literários, em quatro anos integrais, em que o aluno, ao concluí-lo, está apto a exercer a docência universitária e a crítica literária, além de trabalhos na área cultural. Esse curso demonstra que ainda há instituições no país comprometidas com o que há de melhor em formação humana e acadêmica no mundo, assim como seus alunos, e não apenas instituições preocupadas com arrecadações exorbitantes, com as roupas que seus discentes estão vestindo, e estudantes que perdem tempo precioso com futilidades, dentro do próprio ambiente universitário, contaminados por visões preconceituosas e um despreparo intelectual motivado pela inconsciência do que fazem e querem em se tratando de suas formações.quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Marcas na parede...
Dia 21 de novembro será lançada a antologia de contos de suspense e de terror Marcas na Parede, em que, juntamente com outros autores, roteiristas, jornalistas, publicitários, professores, profissionais de artes e músicos, participo do projeto com o conto "A Dança da Vespa", que se inicia com a seguinte epígrafe, pertencente ao escritor alemão Goethe:O verdadeiro tema, o único e o mais profundo de todos da história do mundo e dos homens, ao qual todos os outros estão subordinados, continua sendo o conflito entre a crença e a descrença.
No total, são 47 contos tematizados pelas mais diversas possibilidades do gênero, com toda a riqueza de personagens que habitam o nosso imaginário real e que, ainda hoje, transgridem a lógica da divisão entre corpo e espírito, parecendo, essas almas errantes, estarem perdidas em nosso mundo físico. A obra será distribuída na Livraria Cultura.
Do gênero, Edgar Alan Poe foi um dos grandes mestres, além de grande crítico literário e teórico do conto. Suas histórias são ambientadas entre a lucidez e a loucura, por isso, sua grande característica foi explorar o terror psicológico. Quem não se recorda de "O gato preto" e "A queda da casa de Usher"? Stephen King, também norteamericano, publicou uma grande quantidade de livros, muitos deles, adaptados para o cinema, sendo traduzidos em diversos idiomas. Tzvetan Todorov, em sua obra Introdução à Literatura Fantástica, define o fantástico pela incerteza, a explicação hesitante entre o real e o irreal. E, segundo Todorov, se “as leis da realidade permanecem
intactas e permitem explicar os fenômenos descritos, dizemos que a obra se liga a um outro gênero: o estranho. Se, ao contrário, decide que se devem admitir novas leis da natureza, pelas quais o fenômeno pode ser explicado, entramos no gênero maravilhoso”. Para Italo Calvino, "o conto fantástico revela traços da sociedade em que se insere (...) o fato extraordinário que o conto narra deve sempre deixar uma possibilidade de explicação racional".
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Vitamina de pensamentos vividos em um mês...
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Música italiana

Esse site é incrível, mais de 1000 músicas italianas, compostas até 1976, listadas por ordem alfabética de intérpretes. São músicas mais antigas, mas para o amante da cultura italiana, vale a pena conferir, por exemplo, "Noi due per sempre", de Doris Ghezzi e Wess, "Roberta", de Pepino di Capri, Il mio amore per te, de Roberto Carlos, ou Io che amo solo te, de Sergio Endrigo!!!
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Mariana Alcoforado, a freira de Beja
As Cartas Portuguesas, cuja primeira edição reporta a 1666, foram atribuídas a Mariana Alcoforado, nascida em 1640. Aos onze anos ela já havia entrado para o Convento de Beja, em Portugal, e teria apaixonado-se perdidamente por um Capitão francês, que auxiliou o país durante os anos de Restauração. Em 1669 surge na França Lettres Portugaises, traduzidas pelos séculos para todos os idiomas, além de servir como tema de peças, óperas, pinturas, outros livros. Em uma dessas obras, Mariana é descrita como "uma magra freira que o pecado devora". Que uma paixão violenta e um amor intenso podem ter arrebatado a religiosa, disso não há a menor dúvida, muito embora várias tentativas conservadoras buscaram sufocar a estória de Mariana. Basta pensarmos que em pleno século XX vários protestos se acenderam com a homenagem feita à Florbela Espanca na cidade de Évora, quando uma estátua sua foi colocada na praça da cidade. Na década de 70, três escritoras portuguesas publicam anonimamente uma reedição das Novas Cartas Portuguesas.Com qualidade de estilo literário e carregadas de sentimento, as Cartas tiveram pouca importância para o Oficial francês, que até mesmo co
nstituiu família em seu país. Quantos encontros foram necessários para que se erguesse tamanho sentimento, não se sabe, mas não foram poucas as vezes em que ele esteve nos quartos de Mariana, como é descrito nas suas próprias Cartas. Enfim, "se foi Flaubert que disse que o coração é riqueza que não se vende e não se compra, mas apenas se dá, quem ousa contrariá-lo? (Santos Costa)"
nstituiu família em seu país. Quantos encontros foram necessários para que se erguesse tamanho sentimento, não se sabe, mas não foram poucas as vezes em que ele esteve nos quartos de Mariana, como é descrito nas suas próprias Cartas. Enfim, "se foi Flaubert que disse que o coração é riqueza que não se vende e não se compra, mas apenas se dá, quem ousa contrariá-lo? (Santos Costa)" Carta 1: Tão deslumbrada fiquei com os teus carinhos que seria bem ingrata se não te amasse com o mesmo desvario a que me levava a paixão quando me davas provas da tua. Como é possível que a lembrança de momentos tão belos se tenham tornados tão cruel? E como podem agora contra a sua natureza, servir para me torturar o coração? (...) É esta a recompensa que me dás por te ter amado com tanta ternura? Mas não importa, estou decidida a adorar-te toda a vida e a não ver seja quem for.
Carta 2: Quero que toda a gente saiba, já não faço disso um segredo e estou encantada por ter feito tudo o que fiz por ti, contra toda espécie de conveniências. E já que comecei, a minha honra e a minha religião hão-se consistir unicamente em amar-te perdidamente toda a vida. (...) Saio o menos possível do meu quarto, onde vieste tanta vez, e passo o tempo a olhar o teu retrato, que amo mil vezes mais que à minha própria vida.

Carta 2: Quero que toda a gente saiba, já não faço disso um segredo e estou encantada por ter feito tudo o que fiz por ti, contra toda espécie de conveniências. E já que comecei, a minha honra e a minha religião hão-se consistir unicamente em amar-te perdidamente toda a vida. (...) Saio o menos possível do meu quarto, onde vieste tanta vez, e passo o tempo a olhar o teu retrato, que amo mil vezes mais que à minha própria vida.
Carta 3: Trata-me com dureza. Que não te baste a violência dos meus sentimentos! Sê mais exigente! Ordena-me que morra por ti! Suplico-te que ajudes a vencer a fraqueza própria de uma mulher, e que toda a minha indecisão acabe em verdadeiro desespero.
Carta 4: Bem sei que te amo perdidamente; no entanto, não lamento a violência dos impulsos do meu coração; habituei-me à sua tirania, e já não poderia viver sem este prazer que vou descobrindo: amar-te entre tanta mágoa. O que me atormenta é a raiva e a aversão que ganhei de tudo. A família, os amigos e este convento são-me insuportáveis. Tudo o que seja obrigada a ver, tudo o que tenha de fazer inadiavelmente, me é odioso.
Carta 5: O orgulho, tão próprio das mulheres, não me ajudou a tomar qualquer decisão contra si. Ah, suportei o seu desprezo, e teria suportado o ódio e o ciúme que me provocaria a sua afeição por outra! Pelo menos teria uma paixão para combater. Mas a sua indiferença é intolerável. (...) Vivi muito tempo num abandono e numa idolatria que me horrorizam, e os remorsos me perseguem com uma crueldade insuportável. Sinto uma enorme vergonha dos crimes que me levou a cometer; já não tenho, pobre de mim, a paixão que me impedia de lhes conhecer a enormidade. (...) De si nada mais quero. Sou uma louca por passar o tempo a repetir a mesma coisa.
Estive na cidade de Beja e pude visitar o Museu Rainha D. Leonor, o antigo co
nvento em que viveu Mariana Alcoforado. Ali se pode sentir, com toda a força, a história que se insere nas Cartas Portuguesas. Estar de frente à janela no interior do mosteiro nos faz recriar a imagem de Mariana sonhando sua liberdade e sua paixão, janela por onde seus pensamentos puderam chegar até nós. O estilo epistolar de Mariana inspirou diversos outros escritores, como Chordelos de Laclos, em suas Relações Perigosas. Também constitui tema importante em O Primo Basílio, de Eça de Queirós, entre tantas outras referências ao longo dos tempos. Bakthin diz que o texto sempre faz referência a outros textos passados e sempre fará a outros futuros. Nesse sentido, a freira de Beja deixou marcada suas impressões de vida na literatura universal. Mariana faleceu em 1723, seu amado, em 1715.
Estive na cidade de Beja e pude visitar o Museu Rainha D. Leonor, o antigo co
nvento em que viveu Mariana Alcoforado. Ali se pode sentir, com toda a força, a história que se insere nas Cartas Portuguesas. Estar de frente à janela no interior do mosteiro nos faz recriar a imagem de Mariana sonhando sua liberdade e sua paixão, janela por onde seus pensamentos puderam chegar até nós. O estilo epistolar de Mariana inspirou diversos outros escritores, como Chordelos de Laclos, em suas Relações Perigosas. Também constitui tema importante em O Primo Basílio, de Eça de Queirós, entre tantas outras referências ao longo dos tempos. Bakthin diz que o texto sempre faz referência a outros textos passados e sempre fará a outros futuros. Nesse sentido, a freira de Beja deixou marcada suas impressões de vida na literatura universal. Mariana faleceu em 1723, seu amado, em 1715. segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Amar, verbo intransitivo.
Quem ama ama alguém... quem nunca aprendeu o que é um verbo transitivo dessa forma? Por essência, o verbo amar é transitivo direto. Mas sabemos que a língua carrega inúmeras possibilidades. Mário de Andrade, em seu livro, o nomeou como intransitivo. Por que? Por que basta amar, nada mais é necessário, ou será que o amor não se complementa, realiza? Uma coisa é certa, quem define, não ama. Amor é calmaria, amor é uma criança, amor é uma dor, amor é felicidade, amor é sofrimento, amor é crescimento, amor é... amor é tudo isso e muito mais, basta ser completo. E só o sabe, quem amou, quem sentiu morar no peito esse nobre sentimento, que o modifica, e que modifica também a outra pessoa, mesmo só aos olhos de quem ama. Quantos desejos invadem a alma de quem ama, quantos sonhos se constróem, quantas madrugadas os pensamentos são povoados por aquele a quem se ama. Quem ama não evita sofrer, quem ama não se envergonha de chorar, quem ama muda seus próprios paradigmas. Tudo é possível para o amor, desde que ele se realize, porque até mesmo o amor se acaba. O amor e o tempo não são inimigos, mas travam uma luta em silêncio. O amor sabe que quando querem esquecê-lo, o tempo é o maior aliado, daí uma certa repulsa ao Deus Cronos. É claro que esse mesmo tempo o ajuda a crescer, a solidificar-se, a torná-lo eterno, mas poucos amores se aliam a ele, a maior parte, entram em conflito, mas aí, não é culpa do Deus do tempo, é culpa do próprio ser humano em sua capacidade de amar. E o amor se renova, hein... mas aí é preciso de muita vontade, de muita força, de muita sinceridade. Disse que o amor é dor, mas quando é só dor, virou doença, e a hora, embora não desejamos, é a de curar-se. Nesse mundo de máquinas, ainda não aprendemos a sê-la, pois ainda há o amor, com todas suas (im)possibilidades, (in)certezas e (in)definições. Aliás, o amor só pode ser definido no dicionário. Podemos até aprender a amar, com muita boa vontade e uma grande dose de admiração, carinho e respeito.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Raul Santos Seixas
Falar do Raul (Seixas é perder a intimidade) é ao mesmo tempo fácil, ao mesmo tempo difícil, fica aquela impressão de que nunca teria falado o suficiente. É a minha referência máxima. Gosto do Chico Buarque, da maioria da MPB, do rock nacional, sertanejos antigos, mas Raul... para mim é o cantor, o ator, o compositor... o escritor que talvez tenha me motivado a estar no nono ano de Letras para, com alguma pretensão, entendê-lo. E sei que tudo que eu escrever será pouco científico, "Coisas do coração". Adoro o Raul, não o Raul do "toca Raul", não o Maluco Beleza, o Ouro de Tolo, mas também, e não aquele que nasceu há dez mil anos atrás. Amo aquele que nasceu comigo, no disco Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!, décimo segundo solo, que insisti a minha mãe para comprar no Paes Mendonça. O Raul adorado pela minha prima Selma, pelo motorista Zé, aquele Raul meio rock, meio sertão. O Raul que usou a Globo, e não que a Globo usou,
no melhor estilo de Arnaldo Jabor. Não o Raul que muitos adoram, fumando maconha e jogando ambas as mãos para a direita e esquerda e o tornam ridículo e odiável, como tantos fãs da USP de Chico Buarque e Che Guevara. Amo o Raul que poucos conhecem. O Raul de Baby, de Quando você crescer, de Paranóia II, das Minas do Rei Salomão, de Brincadeira, do Cachorro Urubu, de Novo Aeon, de Por quem os sinos dobram, de Planos de Papel, o Raul que gritou EU SOU EGOÍSTA!, que gritou QUANDO ACABAR O MALUCO SOU EU!, de Quero mais, Só pra variar, Nuit, o grande Carpinteiro do Universo. Se dessas dezesseis músicas você conhecer doze, você, mesmo sem querer, também ama o Raul: o compositor de 99, 39% das músicas que cantou, porque cantava o que acreditava.Raul Santos Seixas era uma enciclopédia do Rock'n Roll, do melhor Rock'n Roll, Chuck Berry, Little Richard, Bi
ll Halley, Jerry Lee Lewis... , Elvis Presley. Raul, como haverá um outro igual sem ser imitação de Raul? Impossível! Raul personagem de si mesmo, que nunca foi personagem, nunca foi mascarado, e como foi difícil ser Raul, com cavanhaque, óculos escuros, jaqueta de couro: "bota o seu blusão de couro, agora é que eu quero ver..." Sua espada, Raul, foi a guitarra na mão... e você foi o maior dos Samurais, cantando Loteria da Babilônia, Teddy boy, rock e brilhantina, Caroço de Manga. Você beirou a ser um ídolo, e só não foi porque essa palavra é apenas produto de uma intensa cegueira, mas quem te conhece, usa óculos escuros... Aos que te ignoram por uma voz pouco afinada ou te relegam ao álcool e às drogas, lembre-se que esses mesmos julgaram Dostoiévski por uma linguagem mal cuidada e por um nacionalismo exacerbado. Para mim, com a liberdade de ser fã, duas grandes mentes do mundo ocidental, não há uma frase que não me lembre Dostoiévski, não há uma canção de Raul que não me remeta a um segundo de minha vida.
ll Halley, Jerry Lee Lewis... , Elvis Presley. Raul, como haverá um outro igual sem ser imitação de Raul? Impossível! Raul personagem de si mesmo, que nunca foi personagem, nunca foi mascarado, e como foi difícil ser Raul, com cavanhaque, óculos escuros, jaqueta de couro: "bota o seu blusão de couro, agora é que eu quero ver..." Sua espada, Raul, foi a guitarra na mão... e você foi o maior dos Samurais, cantando Loteria da Babilônia, Teddy boy, rock e brilhantina, Caroço de Manga. Você beirou a ser um ídolo, e só não foi porque essa palavra é apenas produto de uma intensa cegueira, mas quem te conhece, usa óculos escuros... Aos que te ignoram por uma voz pouco afinada ou te relegam ao álcool e às drogas, lembre-se que esses mesmos julgaram Dostoiévski por uma linguagem mal cuidada e por um nacionalismo exacerbado. Para mim, com a liberdade de ser fã, duas grandes mentes do mundo ocidental, não há uma frase que não me lembre Dostoiévski, não há uma canção de Raul que não me remeta a um segundo de minha vida.Pensei quais seriam as cinco músicas de Raul de que mais gosto... seria mais fácil dizer a que mais odeio: Eu sou eu nicuri é o diabo, pois são poucas. Fazendo esse exercício, selecionei Eu sou egoísta, com uma belíssima interpretação da Pitty, que para ser perfeita só poderia ter esquecido o famigerado "Toca Raul", As minas do rei Salomão, Baby, Meu amigo Pedro e Loteria de Babilônia. Um bônus: Coisas do coração...
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Primeiros encontros com Teolinda Gersão
Teolinda Gersão estudou em Portugal e na Alemanha, exercendo a atividade docente nos dois países, posteriormente, ensinando Literatura Alemã na Universidade de Lisboa, até 1995, passando a partir de então a se dedicar exclusivamente à literatura. Logo no seu primeiro livro, O Silêncio (1981), a escritora já foi premiada. Suas obras tratam sobre a dificuldade de comunicação, a repressão, a violência às liberdades, opressões impostas por um Sistema às classes mais frágeis, o posicionamento do ser humano frente ao mundo. Apesar da protagonização de personagens femininos, Teolinda não é feminista, pois admitir esse posicionamento seria pouco abrangente para o entendimento literário, filosófico e social da escritora. Teolinda tem uma marcante preocupação social, o que faz da literatura uma atividade prática, no sentido de representar questões diretamente afetas a um dado período histórico, para caracterizá-lo no indivíduo e ultrapassá-lo no tempo. Quando comparada à Clarice Lispector, em relação à inquietude da busca pela plenitude da vida, respondeu "há nela toda uma vertente metafísica que a mim não me seduz nem me interessa. Quanto mais vou avançado na vida, mais sinto isso. Apesar de toda admiração e ternura que tenho por Clarice, aquele lado ascético, o lado que diz "não" à vida comum e passa de certo modo ao lado do cotidiano e da vida banal e real dos outros, a troco de uma qualquer revelação transcendente, que no fundo é uma miragem, esse lado, para dizer a verdade, enerva-me..." (GOMES, p. 165)Conheci a escritora Teolinda Gersão nas aulas de Literatura Portuguesa, na USP, ainda na graduação, ministradas pela professora Lilian Jacoto. Na oportunidade, estudávamos os escritores contemporâneos e a obra em que nos centrávamos eram Os Teclados. Terminada a faculdade, em um curso de extensão sobre o conto português no século XX, voltei a entrar em contato com Teolinda, agora por intermédio do excelente texto "Um casaco de raposa vermelha". Este conto tematiza dois aspectos importantes da literatura do século XX; o desejo (desorganização do destino), segundo Foucault, o indivíduo que deseja se revela contra a ordem das coisas; e a escrita do corpo (republicação das Cartas Portuguesas por três escritoras na década de 70).
Uma pequena empregada bancária vê numa loja um casaco de raposa vermelha e passa a desejá-lo. Durante três meses (tempo necessário para juntar o dinheiro e liquidar o valor do casaco) sofre uma tranformação que a faz vestir essa nova pele, o foco é deslocado do objeto para o sujeito, como consequência, há uma mudança de conduta, uma transformação desse sujeito. Durante esse processo, o casaco desperta na mulher um desejo primitivo, inclusive de essência animal, fazendo-a despir da figura de bancária para tornar-se mulher e, finalmente, uma raposa. Há, ao final, um disfarce da barbárie e a incorporação do ônus e a volúpia da fantasia.
- Então bom-dia e obrigada, disse saindo à pressa, receando que o tempo que lhe resta
va se esgotasse e as pessoas parassem alarmadas a olhá-la, porque de repente era demasiado forte o impulso de pôr as mãos no chão e correr à desfilada, reencarnando o seu corpo, reencontrando o seu corpo animal e fugindo, deixando a cidade para trás e fugindo - e assim foi com esforço quase sobre-humano que conseguiu entrar no carro e rodar até a orla da floresta, segurando o seu corpo, segurando ainda um minuto mais seu corpo trémulo - antes do bater da porta e do verdadeiro salto sobre as patas livres, sacudindo o dorso e a cauda, farejando o ar, o chão, o vento, uivando de prazer e de alegria e desaparecendo, embrenhando-se rapidamente na profundidade da floresta (A mulher que prendeu a chuva e outras estórias, 2007).No momento, o livro que tenho como corpus de análise é Paisagem com mulher e mar ao fundo, ambientado durante o período da ditadura de Salazar, em Portugal. A riqueza das imagens, a forma particular de construção do texto, a linguagem e os diálogos que se estabelecem, a força simbólica, sobretudo, a multiplicidade de elementos que precisam ser associados para aprofundar-se no texto de Teolinda Gersão é que me motivou a buscar várias fontes de estudo e vários estudiosos, entre a linguística, a crítica literária, a filosofia e a história, como Bakhtin, Todorov, Antonino Pagliaro, Eni Orlandi, Fiorin, Diana Luz, Bauman, Adorno, Umberto Eco, além de livros de História, a fim de que se possam encontrar os aspectos dialógicos (múltiplas vozes) que surgem no livro, como elas se impõem ou se calam, para quem falam, como articulam os aspectos poéticos, e buscar uma unidade para tantos símbolos que enriquecem a significação da narrativa. É uma atividade complexa, porém, que me enriquece a cada nova leitura, ensinamentos que somente são permitidos por uma obra de tanta qualidade, com tantos recursos literários, e que estabelece um contato íntimo com várias outras disciplinas. Pretendo, ao longo desse estudo, postar textos baseado nas impressões sobre os resultados dessa análise.
Pela primeira vez na sua vida andava num lugar e não contra um lugar, reparou, e não havia nenhuma força gasta em vão. Apenas o prazer secreto de existir, de existir sem pressa, vagueando, domesticando as coisas com o olhar, deixando-se domesticar pelas coisas, sentindo na casa vazia a presença dele, uma presença sem defesa, abandonada, como se o olhasse enquanto dormia.
(...) Uma etapa da sua vida terminara e uma outra se abria, uma verdade descoberta com o corpo, à medida de seu corpo despido de mitos, cumprido, experimentado, só de experiências e de verdade feito - a força que havia no amor, numa relação de solidariedade e não de supremacia nem domínio, as pessoas reciprocamente apoiando-se, trabalhando juntas para um mesmo fim (Paisagem com mulher e mar ao fundo).
- GOMES, Alvaro Cardoso. A Voz Itinerante. São Paulo: EDUSP, s/d.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Valery disse que a prosa é a marcha e a poesia é a dança...
Gosto muito das músicas do Barão Vermelho, sobretudo, interpretadas pelo Frejat, para mim, hoje o melhor representante do Rock Nacional, dos grupos que foram surgindo a partir da década de 80. O novo mercado musical "obrigou" muitos artistas a se adaptarem para que pudessem sobreviver nesses novos tempos. Na minha opinião, alguns foram longe demais, como os Titãs e o Paulo Ricardo, mas isso é uma outra estória... Rock nacional começou lá atrás, em 1968, com uma banda chamada Raulzito e seus Panteras, de onde emergiu o grande roqueiro nacional, Raul Seixas (de quem farei um comentário especial, mas falar de Raul e não cair na mesmice precisa de muita concentração), cantor, campositor, artista.Gosto dessa música pela forma como a voz chama a todos para ver a poesia, pelos significados que estabelece, sobretudo porque mostra como a literatura está presente em nossos dias, mesmo que não percebamos de uma forma direta, e é sobre isso que também fala a música. Quem, mesmo sem estudá-los, nunca ouviu falar de Dante Alighieri ou Miguel de Cervantes e seu Dom Quixote? Quem nunca ouviu os termos dantesco (fazendo referência à grandiosidade da Divina Comédia) e quixotesco? O poeta é aquele que enxerga as mesmas coisas que nós, mas as traduz e exprime de uma forma diferente, que toca a nossa sensibilidade. E por mais que temos a sensação de que o mundo caminha para a degradação, que as coisas antigamente eram melhores, que as pessoas estão cada vez mais individualistas, a vida nos presenteia com momentos que nos demonstram que o poeta ainda está vivo. Vamos continuar lendo os jornais, pois é inútil ignorar o cotidiano e suas obrigações, mas de vez em quando, sempre que possível, ver o sol e escutar o galo cantar... e ainda me lembro quando o galinho cantava todas as noites.
O Poeta está vivo (link com o vídeo)
Composição: Roberto Frejat e Dulce Quental
Baby, compra o jornal, e vem ver o sol.
Ele continua a brilhar, apesar de tanta barbaridade...
Baby escuta o galo cantar, a aurora dos nossos tempos.
Não é hora de chorar, amanheceu o pensamento...
O poeta está vivo, com seus moinhos de vento,
a impulsionar a grande roda da história...
Mas quem tem coragem de ouvir, amanheceu o pensamento,
que vai mudar o mundo, com seus moinhos de vento...
Se você não pode ser forte, seja pelo menos humana,
quando o Papa e seu rebanho chegar, não tenha pena...
Todo mundo é parecido, quando sente dor,
mas nu e só ao meio dia, só quem está pronto pro amor...
O poeta não morreu, foi ao inferno e voltou,
conheceu os jardins do Éden e nos contou...
Mas quem tem coragem de ouvir, amanheceu o pensamento,
que vai mudar o mundo, com seus moinhos de vento.
a. O poeta está vivo com seus moinhos de vento

- A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que soubemos desejar, porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é uma boa guerra e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra.
- Quais gigantes? – disse Sancho Pança.
- Aqueles que ali vês – respondeu o amo -, de braços tão compridos, que alguns os têm de quase duas léguas.
- Olha bem Vossa Mercê – disse o escudeiro – que aquilo não são gigantes, são moihos de vento, e o que parecem braços, não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar as mãos.
- Bem se vê – respondeu Dom Quixote – que não andas corrente nisso das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em fera e desigual batalha (CERVANTES, 2002:59)
Depois de atuar por anos como soldado, Miguel de Cervantes estreia como escritor em 1585. Não foi um grande dramaturgo, tendo, contudo, imortalizado sua existência com a obra Dom Quixote, publicada em 1604. Um grande tema do livro passa pela questão da loucura, a condição de se viver em ilusão, uma vida em que a realidade não pode encontrar um lugar. Segundo o crítico Harold Bloom, Cervantes foi o maior escritor em língua espanhola, “eminência para todo o sempre, comparável a Dante, Shakespeare, Montaigne, Goethe e Tolstoi, que escrevem nos demais grandes idiomas vernáculos ocidentais”.
b. O poeta não morreu, foi ao inferno e voltou
Conheceu os jardins do Éden e nos contou
Por mim se vai das dores à morada,
Por mim se vai ao padecer eterno,
Por mim se vai à gente condenada.
Moveu justiça o autor meu sempiterno
Formado fui por divinal passança
Sabedoria suma e amor superno
No existir, ser nenhum a mim se avança
Não sendo eterno, e eu eternal perduro
Deixai, a vós, que entrais, toda a esperança!
A vida de Dante Alighieri assemelha-se a um poema atribulado, mais próximo do Inferno do que ao Purgatório criados pelo poeta, bem distinto do Paraíso. Quanto à musa, Guido Cavalcanti, também poeta, revela que “Beatriz é toda felicidade que ele teve na vida e, sem ela, não teria encontrado o caminho da salvação”. (BLOOM, 2003:122)
Dentre todos os relatos bíblicos, pode-se dizer que o mais mítico é aquele do drama do Éden, contido nos capítulos II (versículos 7-25) e III do Gênesis. O trajeto de Dante se inicia pelo Inferno, que corresponde à primeira parte da Divina Comédia. Cada círculo do Inferno correponde a um tipo de pecado, do Limbo à cidade de gelo, onde se encontra Lúcifer. As outras duas partes desenvolvem-se no Purgatório e no Paraíso, onde finalmente Dante encontra sua musa Beatriz.
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segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Para viver um grande amor...
Carinho, respeito, confiança: depois que dois olhares se cruzam e acontece a mágica de despertar o amor esses três elementos, estando presentes, poderão construir um amor eterno, mesmo nos dias de hoje, onde outras pessoas só entrarão para acrescentar, e não para quebrar essa mágica. Hoje já não posso mais acreditar que o amor seja apenas uma criação da sociedade burguesa, do período romântico: afirmo isso com propriedade. O amor é feito de sonhos, sim, porque sonhar faz parte da própria essência do ser humano. Quando se deseja, cria-se um mundo a parte de tudo, e se parte para realizar. Estar ao lado de uma pessoa e desejar que as horas não passem, sentir que não há, naquele momento, outro lugar melhor, estar feliz, porque o coração pulsa sob a música daquele amor. Compartilhar conhecimentos, aprender a tolerar, interessar-se pelas coisas do outro, e assim caminhar juntos, superando as dificuldades. Enaltecer as qualidades, auxiliar a superar os defeitos, sem julgamentos, pois somos seres em constante construção. Para viver um grande amor basta que ele surja, que o alimente, que o faça crescer. Basta só isso; mas como hoje em dia é difícil viver um grande amor, porque as pessoas estão fechadas em si mesmas, julgam somente com seus olhares, gritam com a intenção de ofender, desrespeitam os espaços, os limites, o outro. Aceitam o que dizem, pois há muitos que dizem para destruir um grande amor. Algumas pessoas perderam a capacidade de serem verdadeiras, essas perderam a capacidade de viver um grande amor. Algumas pessoas justificam suas fraquezas no comportamento do outro, como se alguém pudesse mudar um destino que só a elas pertence, essas também não podem viver um grande amor. Algumas pessoas não desejam viver um grande amor, e quando querem, já é tarde demais. Quando a cabeça fala mais alto do que o coração, já não se vive um grande amor. Não é difícil viver um grande amor, os olhos dizem mais do que qualquer palavra, dos olhos, nada se constrói sem a alma, os olhos são espelhos de quem vive um grande amor.Link para o vídeo:
Não importa onde você parou... em que momento da vida você cansou... o que importa é que sempre é possível e necessário "Recomeçar" (Drummond)
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