sábado, 24 de julho de 2010

Anni dorati

Quem não tem na lembrança momentos vividos ou vistos em anos dourados, passagens que ainda ocupam em nossa memória lugares, pessoas, músicas, tempos que soam distantes do nosso?
Gigliola Cinquentti começou a estudar a arte e a cantar muito jovem, ainda com quinze anos. Foi protagonista de um filme marcante na cultura mundial, aí incluída a brasileira, em cenas que revemos dezenas de vezes, sempre com o mesmo olhar atento e emocionado, tendo como fundo a música de Domenico Modugno, cantor, ator e vencedor por várias vezes do Grammy e do Festival de San Remo, mundialmente reconhecido. Dio come ti amo também é o nome do filme que estreou em 1966. Gigliola participou de doze edições do Festival de San Remo, vencendo duas, além de muitos outros prêmios recebidos em razão de uma carreira consagrada.
Gigliola volta na década de 90, agora como jornalista, colaborando em diversos jornais italianos, década em que também encerrou sua participação em festivais. Atualmente, a talentosa cantora, com seu timbre de voz marcante, trabalha na televisão pública RAI, com a mesma maestria da cantora, da artista plástica, criadora de muitas capas de seus discos, da jovem que com o passar dos anos não perdeu a força de um olhar apaixonado, marcado pela pureza e pela força de um sentimento que, mesmo nos dias de hoje, ainda nos move pela vida e nos faz mais sensíveis e menos contaminados pelas tragédias do mundo contemporâneo. Gigliola Cinquentti non avrà mai l'età e anche noi non avremo mai l'età per amarla, ameremo sempre (escute a música).
E que esses anos dourados não terminem nunca mais.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Estrangeiro

Eram ruas escuras, desconhecidas, eu caminhava em ritmo frenético, afastando-me do meu mundo real. Sudorese. Era assustador, estranho, desconfortável. Não conhecia aquele lugar, nunca havia estado ali. As intersecções pareciam não levar a lugar nenhum... pensei em voltar. Dei-me conta do impossível: voltar para onde, guiar-se por qual sentido, chegar em qual lugar? Prossegui.

Resolvi não parar mais. A cada novo minuto, alguns novos metros percorridos. Havia vozes, mas não se podia entender o que elas diziam. Eram muitas, não completamente desconhecidas, mas que pareciam perdidas na memória. Não havia rostos, uma única imagem me ocupara a mente. Então, meus ouvidos cederam espaço para a primazia dos meus olhos, já que muitas cores surgiram a minha frente, rompendo com a escuridão. Observei-as extático.

Estradas, mares, aeroportos... Eu estava em outra cidade, talvez em outro país, e quanto mais distante eu estava de você, mais eu me aproximava de mim. Podia até mesmo me sentir. Então descobri que esse era o segredo: sentir-me sem interferência, distanciar-me para aproximar-me. Desfiz o paradoxo. Comecei a correr, atravessei bairros inteiros, uma música começou a tocar, o tempo parou: uma voz feminina enebriava todos os meus sentidos, que já não eram mais um, dois, cinco, eram todos, múltiplos sentidos, vontades, desejos. Estava pleno de mim, o tempo deixou de correr, formavam-se várias imagens que eram apenas uma, distante, sublime, imortal.

Não olhei mais para trás, nunca mais desejei regressar. Escolhi algumas pessoas e expliquei como chegar... e como voltar. Muitas voltaram, muitas não vieram, muitas aqui estão. Os sons já não são estranhos, as esquinas sempre abrem caminhos, os mesmos por onde queremos andar. Tudo é tranquilo. Posso até lembrar: por quatro ou cinco vezes já estive nesse mesmo lugar, mas não resisti à tentação de voltar, e voltei, de fugir de mim mesmo, e fugi, de ser um estrangeiro desse mundo em que agora estou, e onde vou ficar.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago, nosso grande escritor

Nesta data, aos 87 anos de idade, morre o escritor José Saramago, nosso prêmio Nobel de Literatura em língua portuguesa. Publicando seu primeiro grande livro já aos 58 anos de idade, Saramago passou por diversas carreiras antes de se consagrar escritor, de mecânico a jornalista. Cético assumido, crítico mordaz da religião e de regimes políticos imperialistas, Saramago começou a ter problemas com a tradição portuguesa e com a Igreja Católica após a publicação de O Evangelho segundo Jesus Cristo, razão pela qual se mudou definitivamente para a Espanha. Dentre seus grandes sucessos estão Memorial do Covento e Ensaio sobre a cegueira, adaptado para o cinema pelo brasileiro Fernando Meireles. Destinou os recursos da reedição de A Jangada de Pedra para as vítimas do Haiti. Seu último livro, Caim, publicado em 2009, causou novas críticas da Igreja Católica, que em nada abalaram o escritor português, como pode ser verificado nesta entrevista. Pessoas próximas dizem que o escritor se despediu serenamente antes de sua morte.

sábado, 5 de junho de 2010

Argentina: hermanos, irmãos.

Algumas dicas do que pude sentir sobre como se virar bem em Buenos Aires:
1 - Saiba exatamente o aeroporto em que você vai chegar, pois há dois: o de Ezeiza, que fica a 35 km do centro da cidade, e o aeroparque Jorge Newbery, há dez minutos do centro. Melhor ainda, saiba por qual irá retornar, nem sempre a lógica de que parto por onde chego funciona, pude ver o desespero de uma carioca que foi para o aeroporto errado.
2 - Melhor do que chegar com muitos pesos ou dólares, é chegar com algumas moedas: o ônibus 45 passa em frente ao aeroparque Jorge Newbery, mas o pagamento deve ser feito com $ 1,25 peso em moedas, depositadas diretamente em uma caixa atrás do motorista, e haverá poucas pessoas solícitas em trocá-las (nem tente na banca de jornal, muito menos com o motorista). Os pontos marcam os números dos ônibus que ali param.
3 - Trocar dólares por peso argentino já na Argentina é uma boa escolha, também pode fazer com os reais. Melhores locais são na Rua Florida ou no próprio hotel. Muito cuidado com os taxistas e comércios, que podem passar notas falsas.
4 - Não há problemas em se andar pelas ruas à noite, há ônibus em todos os horários, que servem toda a cidade de Buenos Aires. O metrô (subte.) também funciona bem e são super baratos (em média $ 1,10 peso).
5 - Esqueça o feijão, as comidas não são caras e achar algum chinês que serve comida por quilo (junto ao mercado dele) é uma boa solução para quem quer comer com variedade e pagar barato. Se optar por um restaurante, terá o desgosto do garçom dizer em tom rude: "a gorjeta não está incluída no serviço de mesa". Ah, e não é obrigatória. Cuidado quando quiserem cobrar a toalha que colocam sobre a mesa.
6 - As bebidas são muito caras, inclusive a água, convém procurar um Carrefour.
7 - Os argentinos (homens) partem para cima das mulheres, são bem diretos.
8 - As diversões noturnas começam já na madrugada, de segunda a segunda, por isso, parece que as pessoas acordam mais tarde para o trabalho.
9 - Com $ 188,00 pesos e um pouco de tempo, pode-se sair de Porto Madero, a barco, e chegar ao Uruguai (Colônia) em apenas uma hora. A viagem até Montevidéu custa um pouco mais caro e demora três horas.
10 - A cidade é linda, um clima maravilhoso, em sua maioria, o povo é solícito, inequecível parar em suas cafeterias, ver a sua arquitetura, entrar em seus bares. Cada bairro tem suas atrações, seus tons, seu toque. Vale muito a pena ir a Buenos Aires.
11 - Não se pode deixar de visitar a Mafalda, tranquilamente sentada em San Telmo. Poucos metros atrás há um bar encantador, que se chama La Poesia. Fica aí minha sugestão.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

"La Strega e il Papa", de Dario Fo

Os Parlapatões estreiam a peça “A Bruxa e o Papa”, da obra homônima de Dario Fo, “La Strega e il Papa”, escrita em 1989. Dario Fo (1926), ator, comediante e teatrólogo italiano, de família antifacista, aborda temas polêmicos em suas obras, por meio da comédia, causando ao mesmo tempo riso e mal estar. Nesta peça, por exemplo, o texto de Fo está direcionado para a burocracia da Igreja, não deixando de tocar em pontos delicados, como o aborto, o celibato e as drogas.
Na montagem, o grupo de teatro paulista intensificou as críticas com intervenções do cenário atual, por exemplo, quando ironiza os padres cantores brasileiros. As piadas são muito bem colocadas durante a apresentação e até mesmo quando os diálogos em cena parecem exaustivos e correm o risco de se perderem, o texto ganha novo fôlego, e as gargalhadas e aplausos passam a interagir com os atores no palco.
Com ótimas interpretações, sobretudo do Papa, do médico e de um alcoólatra, a peça acaba por prender o telespectador do começo ao fim e entre alguns bons momentos de risos, determinadas situações parecem constranger a plateia, por exemplo, quando há a citação mais do que direta de uma expressão religiosa, ou de classes sociais desfavorecidas, riscos que, segundo os atores, correspondem às comédias, mas que o público deve entender como uma forma de proposição para que se pense sobre pontos importantes da nossa sociedade, e não como um desmerecimento a este ou aquele seguimento, o que concordo plenamente. Gil Vicente já nos alertava que os males não estão nas instituições, mas nas pessoas que delas se servem.
Dario Fo enfrentou sérias dificuldades sociais, econômicas e ideológicas, inclusive, escondendo-se quando foi recrutado à guerra na época em que Mussolini tentava voltar ao poder na Itália. Nada disso foi suficiente para abalar a excentricidade do Prêmio Nobel de Literatura (1997). Mesmo que muitas de suas apresentações sejam vistas como blafêmias, Dario Fo é um ícone da arte no mundo, um homem em que a verve artística supera qualquer limite e padronização.
Serviço: Teatro Arthur Azevedo. 480 lugares. Av. Paes de Barros, 955, Mooca, Zona Leste. Tel. 2605-8007. Estacionamento próprio. De 7/5 a 13/6. 6ª e sáb., 21h. Dom., 19h. R$ 10.

"Era una utopía, preciosa como todas las utopías."

Indicação de um blog de extremo bom gosto, que poeticamente nos fala de literatura:
http://paisajesdeunarealidadutopica.blogspot.com/ (em espanhol)

sábado, 27 de março de 2010

poeira: demônios e maldições

Nelson de Oliveira publica mais um livro, pela editora Língua Geral: poeira: demônios e maldições.
Conheci primeiro o professor universitário Nelson, durante um curso em que eu estudava para ser professor universitário. Por consequência, passei a conhecer o Nelson como pessoa, durante quatro sábados, tempo curto, mas revelador. Por fim, conheci o escritor Nelson de Oliveira. Não sei qual é o que mais admiro, por um motivo claro: o Nelson de Oliveira, escritor, é o professor doutor Nelson, também de Oliveira, e o homem Nelson. Sua única fantasia é o talento, para escrever e para ensinar. Não há personagens, ele é autoria de si mesmo. É daquelas pessoas que nos causam inveja, porque ele escreve o que gostaríamos, antes mesmo de ler, de escrever. Uma inveja que nos motiva, que nos faz acreditar. Ele nos mostra que as humanidades sobreviveram, sobrevivem e vivem, não sobre, mas entre nós. Mesmo com tantas dificuldades por que passamos na cultura, ele cria, compulsivamente, rompe barreiras e nos presenteia com cada nova livro. E ele existe! Podemos tocá-lo, talvez nem ele mesmo saiba o que representa para tantas outras pessoas, ou não importa sabê-lo. Mais do que um ídolo, um ícone, um exemplo, Nelson nos permite senti-lo como um amigo, e este talvez seja o grande segredo de todo o sucesso desse grande romancista, por que não dizer, esse grande contador de estórias, que adoramos ouvir.
Tentemos enquadrar sua literatura contemporânea dentro de algum conceito: comecemos por saber que Nelson gosta da ficção científica, que é filho da contemporaneidade, que é artista plástico, que é urbano. Muito nos ajuda, a nos confundir. Nelson ignora, neste livro, a própria contemporaneidade (esta entre aspas), a urbanidade, que trata de excluídos, do dinheiro, da decadência arquitetônica, do verossímil. Ele trata de tudo isso e de nada disso. Buscando referência no meu próprio blog, e formação, ele é um escritor do realismo fantástico, uma realidade meio estranha, que me faz lembrar, ou melhor, não esquecer, de Italo Calvino, e um de seus livros mais impressionantes, traduzido por “Se um viajante numa noite de inverno”. Quem o me apresentava, em 2002, era o professor Jorge de Almeida, da USP. Olha, dá até para dizer: “Estás prestes a começar a ler o novo romance poeira: demônios e maldições de Nelson de Oliveira”, mas Nelson é muito mais maldoso do que o mestre italiano, mais contemporâneo, nonostante il facismo statale, Italo era mais bom moço, em seu Il visconde dimezzato. O escritor italiano vivia entre a segunda guerra mundial e o mundo real. Nelson vive (e sobrevive) entre o nosso mundo real e o nosso mundo mimético, daí, o nosso estranhamento. Acho que o grande marco é: Nelson se utiliza da metalinguagem demonstrando a insuficiência (e inutilidade) dos conceitos primários de literatura falando de literatura, de teatro falando de teatro (aliás, nesta área, Hamlet nos mostra que isso não tem nada de banal), de jornal falando de jornal: a metalinguagem em seu livro nos ensina, na prática, a escrever. O realismo fantástico, de Calvino, e o neo-realismo italiano, foi um conjunto de vozes, dito “dopoguerra”, que procurava entender e reconstruir um mundo desconstruído. Nisso, Nelson vai além, por uma questão diacrônica, ele traz para a prática mimética da literatura a possibilidade de construir, mais do que isso, de transgredir, para ampliar o significado, por exemplo, com referências que vão e vem, reais ou fictícias, possíveis no universo no qual somos imersos; uma trama que nos prende ao enredo, cujo mistério passa a se revelar “in media res” no total de páginas do livro, as nuances linguisticas, imagens que se entrelaçam, repetições que significam, palavrões estilísticos, digo, literariamente “invulgares”, assim como em “O oitavo dia da semana”, o bom humor, a relação fala e escrita, subvertendo normas de pontuações, mesmo que ainda tão tradicionais, que nos faz pensar em novas recorrências do discurso indireto livre, já que ele nos obriga a adotar novos critérios para identificar os interlocutores, critérios novos de linguagem e estilística, as questões políticas subjugadas às questões literárias, outras que aqui não cabem, que não percebi, que perceberão e que nunca perceberei, talvez nem mesmo o autor. É fácil explicar os parágrafos e capítulos curtos pelo caráter folhetinesco, mas difícil é construir a força literária presente em muitos desses curtos parágrafos. A literatura do escritor está intimamente relacionada com o nosso cotidiano, com o estranho, com a psicologia, com a metalinguagem. Nelson é estranho, é fantástico, é maravilhoso, é tudo isso, menos definível. Ele nos mostra eternos conflitos entre o sexo masculino e o feminino, a previsibilidade do comportamento humano, que se adapta a situações mais corriqueiras, como as recorrentes interpretações de sonhos e pesadelos ou o cenário de uma chuva torrencial, detalhada em cada um de seus (nossos) movimentos. Metalinguagem, ficção, nosso quarto, recheado de tantos livros. É sobre isso que passamos a nos preocupar, é isso que passamos a perceber, a cada novo capítulo de poeira: demônios e maldições. Umberto Eco, em sua obra “Sulla leterattura”, disse que “se la generazioni future arriveranno ad avere un buon rapporto (psicologico e fisico) con l’e-book, il potere de Don Chisciotte non cambierà”. O semiólogo italiano, que como Calvino, e Nelson de Oliveira, já nos encantou com suas fábulas, estórias, “criancices” e historicidade, em seu livro Baudolino, quis dizer que, independentemente do meio (Jakobson chamava de canal), a obra sempre prevalecerá. Concordo e discordo. Tendo em mãos (nas duas) o exemplar do livro poeira: demônios e maldições, recém-publicado (e autografado), não posso o imaginar por completo sem sua capa, sem suas cores, sem a relação de linguagens ali estabelecidas e, claro, sem meu autógrafo, talvez, pela simbiose pertinente do autor-escritor e artista plástico (e seus colaboradores). Nelson rompeu, Nelson conciliou. E não percebo nem mesmo a importância de se discutir personagens planos ou esféricos. Raskólnikov era muito esférico; Josef K. não teve oportunidade de o ser, pois, não sabendo de seus pecados, não pôde se corrigir (morreu como um porco)... Acima desta discussão, personagens esféricos ou planos, é a criação que efervesce no autor. Nada mais contemporâneo. Pessoas burocráticas, sentimentos vis, mas humanos, demônios, gnomos, livros, censura e literatura... ficção e realidade, o outro e nós mesmos. Enfim, um brinde a uma das melhores expressões da prosa literária brasileira.

sábado, 20 de março de 2010

O que significa aprender um novo idioma?

Muitas qualificações se voltam para o interesse exclusivo no mercado de trabalho. O tempo é curto, e necessário. Aprender um novo idioma requer, sem dúvida, organização, empenho, objetivo, como todos outros conhecimentos técnicos, mas, ainda (e mais ainda), uma grande dose de amor. Por que amor? Precisamos nos envolver com a cultura, com as pessoas, com os livros, com o cotidiano, com a História, esta com letra bem maiúscula. Daí, talvez, meu distanciamento, inútil e efêmero, com a língua inglesa. Tenho interesses frios com esta língua, não ignoro sua necessidade, sua qualidade, pois estaria, por exemplo, ignorando Shakespeare, Joyce, até mesmo Pessoa, mas prefiro as latinas. A cultura latina é para mim mais interessante (ressalva feita à russa), e isso é muito particular. Assim, optei pela graduação em italiano, estou fazendo o francês, matriculei-me no espanhol. Não me diga que esta última língua é fácil de se entender, quero novamente mergulhar na cultura, na formação do povo, em seus artistas, e me surpreendi já na primeira aula. Nenhum aprendizado é fácil. Aprender um novo idioma é estar em contato com outras milhões de pessoas, buscar chegar as suas origens, tentar entender seus cotidianos, abrir as portas para novos conhecimentos. Talvez, ler o primeiro livro no original; o primeiro beijo de muitos outros. Fazer parte do mundo. E nesse mundo cada vez mais multifacetado e interligado, aprender uma nova língua é se sentir cada vez mais humano, já que é por meio da linguagem que nos desenvolvemos, é por meio dela que realmente mostramos quem nós somos, o que queremos do outro e o que temos para oferecer a ele. Didaticamente, há sempre uma segunda, terceira, quarta língua..., no íntimo, há línguas que se relacionam, que convivem, que se completam. Viva todas as línguas do mundo!!!

sexta-feira, 5 de março de 2010

O mundo poético em um mundo patético


No livro “Cartas a um jovem poeta”, Rilke aconselha voltar-se para dentro de si mesmo e sondar as profundezas de onde vem sua vida. Sentir a necessidade de dizer, simplesmente para reconstruir o que parece estar fragmentado. Assim fazia Anna Akhamátova. Deixar fluir essa força que vem não se sabe de onde e corta nosso cotidiano de forma tão suave, pois não obriga que a sua voz seja ouvida, há de se ter vontade de percebê-la, e uma boa dose de sensibilidade.

Poesia, do grego poesis, fazer. Hoje somos feitos, pouco fazemos. E a poesia nos liberta, e isso assusta. Esses dias recebi um e-mail, daqueles cuja lista de destinatários representa noventa por cento da mensagem, uma barbárie: divulgava uma suposta resposta escolar (que nem acredito que seja real) aos versos de Camões, “Amor é fogo que arde sem se ver...”, em que a aluna criava outro “poema”, nele atribuindo ao escritor português problemas de saúde, entre eles, falta de sexo, ainda lhe prescrevendo vários medicamentos. A mensagem dizia que pela criatividade, ela havia tirado nota dez. E o título da mensagem: “interpretação de texto”. Poesia não é interpretação, é análise, é o sentir. Quanto ao sexo, o problema atual é o excesso, muitas vezes, só na cabeça.

Estamos perdendo a capacidade de sentir, de olhar para nós mesmos, de escutar o que o outro tem a dizer. E nesse aspecto, a poesia, a literatura pode nos ajudar. A literatura em perigo, como escreveu Todorov, coloca a nossa sociedade em perigo. Bakhtin nos revela a função prática da arte para o ser humano: “devo responder com minha vida por aquilo que vivi e compreendi na arte, para que o vivido e o compreendido não pareçam sem ação na vida”.

A cultura de massa, movida por grandes interesses pequenos, está contribuindo para o desenvolvimento de um mundo cada vez mais patético. A televisão, sua grande aliada, nos destroi, dentro e fora dela. É deprimente ver um bom jornalista e escritor submeter seus textos a um modelo de degradação mental, que os tornam chatos e apelativos, pois já se adequaram às exigências do programa, para uma população cada vez mais privada de uma postura crítica. Postura crítica há muito jogada na descarga. Basta ver os duvidosos resultados do veredicto popular.

Proibiram o comercial da cerveja “devassa”, sob a alegação do excesso de sensualidade de Paris Hilton, que seria ofensivo às mulheres. O anúncio não pode mais ser veiculado no intervalo de “Viver a vida”, mas as mulheres tipificadas na novela, essas continuam poluindo nossas noites, por meio de um enredo que se alicerça num jogo (nada intrigante) de traições, mentiras, futilidades. E a estória de superação de uma pessoa com deficiência física (por favor, nada de necessidades especiais, eufemismos hipócritas), perde-se no marasmo, na construção de frases e atos feitos, típica de péssimas tramas televisivas. O que falar de “Tempos Modernos”? Há dois males neste país que se alimentam numa dialética etérea: corrupção e hipocrisia. Antigamente, relutava aceitar a ideia de que as pessoas fossem construídas pela televisão; hoje, sem dúvida, quando não temos em que nos apoiar, estou certo de que isso seja verdade.

A literatura ou outras formas de conhecimento não salvarão o mundo, nem mesmo reclamam por atenção. Ela simplesmente existe, rica, cheia de humanidade, experiências, lições que se tivéssemos algum tempo para aprendê-las, não estaríamos sofrendo com monstros que alimentamos em nosso dia a dia, para depois lamentarmos as feridas que eles vão abrindo em nossos corações.

Termino este curto desabafo com um trecho de uma carta, escrita por Dostoiévski a seu irmão, presente em um livro que comprei na Itália, Lettere sulla creatività:

Riesco abbastanza bene nello studio del “significato dell’uomo e della vita”; posso studiare i caratteri mediante la lettura degli scrittori in compagnia dei quali trascorro liberamente e gioiosamente la parte migliore della mia vita; non ti dirò più nulla su di me. Mi sento sicuro di me. L’uomo è un mistero. Un mistero che bisogna risolvere, e se trascorrerai tutta la vita cercando di risolverlo, non dire che hai perso tempo; io studio questo mistero perché voglio essere un uomo.

Tenho grande sucesso no estudo do “significado do homem e da vida”; posso estudar os homens mediante a leitura dos escritores em companhia dos quais passo livremente e alegremente a melhor parte da minha vida; não te direi mais nada sobre mim. Me sinto seguro de mim. O homem é um mistério. Um mistério que se necessita resolver, e se você passar toda a vida procurando resolvê-lo, não diga que perdeu tempo; eu estudo este mistério porque desejo ser um homem.

sábado, 23 de janeiro de 2010

O inferno dos vivos, por Italo Calvino

Adoro este texto de Italo Calvino, presente no capítulo final de seu livro, As cidades invisíveis.

"L'inferno dei viventi non è qualcosa che sarà; se ce n'è uno, è quello che è già qui, l' inferno che abitiamo tutti i giorni, che formiamo stando insieme. Due modi ci sono per non soffrirne. Il primo riesce facile a molti: accettare l'inferno e diventarne parte fino al punto di non vederlo più. Il secondo è rischioso ed esige attenzione e apprendimento continui: cercare e saper riconoscere chi e cosa, in mezzo all'inferno, non è inferno, e farlo durare, e dargli spazio."
(Italo Calvino, Le città invisibili, 1972)

"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: procurar e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço"

Política brasileira: uma piada de muito mau gosto!

Não queria começar o ano sendo chato, mas em época de eleição como não sê-lo? Somente me omitindo, não quero fazê-lo. Há muito desacreditei na política, melhor, nos nossos políticos. Queria que esse senso comum que agora escrevo realmente representasse uma mudança de atitude, de mundo, para o nosso próprio bem. Não sou fã do Milton Neves, mas ele disse uma grande verdade: “Precisou morrer para a conhecermos”, referia-se a Zilda Arns. E o Bambam, do Big Brother, quem não conhece? Aí me socorro de Drummond, mas antes, as enchentes... estão morrendo PESSOAS, e parece que é maldade da natureza, e não fruto de uma política mesquinha, corrupta e ordinária que existe nesse país. Ah, mas o povo tem sua parcela de culpa, joga lixo nas ruas... esse mesmo povo que paga IPTU, IPVA, IR, Ietc... e que já não aguenta mais. Cadê a educação para esse povo, cadê as campanhas educativas..?!! existem? Ah, não há verbas, mas dinheiro para propaganda política, tem de monte. Não aguento mais ver comerciais de plano de expansão. Quem se serve do transporte público, sabe que isso é balela, piada de mal gosto. Onde vemos aquelas pessoas felizes no metrô, nos ônibus, nos trens da CPTM?? Nem um terço dos piscinões prometidos, e necessários, foram construídos pelo governo. Nesse ritmo, decorreriam dez anos, sem mais lixo jogado no Tietê, para solucionar o problema. O fundo do rio está cheio de lixo, que impede a absorção das águas da chuva sem que ele transborde. As verbas para os projetos contra enchentes foram reduzidas para 2010, mas para as propagandas políticas, não foi perdido nem um centavo. Ah! Voltemos ao Drummond, muito menos famoso do que a Jose, a Surfistinha, a Popozuda, o Bambam, Geisa... “Reconheço alguns defeitos que aponta no meu espírito. Não sou suficientemente brasileiro. Mas, às vezes, me pergunto se vale a pena sê-lo (...) Acho o Brasil infecto. Perdoe o desabafo, que a você, inteligência clara, não causará escândalo. O Brasil não tem atmosfera mental; não tem literatura, não tem arte; tem apenas uns políticos muito vagabundos e razoavelmente imbecis ou velhacos. Entretanto, como não sou melhor nem pior que meus semelhantes, eu me interesso pelo Brasil” (Correspondências completas entre Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade, pp. 56 e 57). Imagine se ele tivesse visto o dinheiro nas meias, nas cuecas, Surfistinha virando filme, o descaso geral. E recentemente o presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Antonio Carlos Rodrigues (PR), defendendo o aumento de salário do Prefeito (para R$ 23.000,00) e seus auxiliares (para perto disso), perguntou: “Quem consegue viver com um salário de R$ 5.000,00, se eu ganhasse isso, não teria nem formado meus filhos”. Será que formou ou comprou a formação? Esse tipo de político desconhece o valor dessa palavra. Essas pessoas fazem o país infecto. Quem ler esse desabafo, pense bem. Não vamos deixar essas pessoas fazerem o que querem, tomemos uma atitude! Nada de Serra, de Kassab, de raio que o parta. A minoria está interessada nos problemas do país e do povo, cabe a nós identificá-la e divulgá-la. Chega de Big Brother, de Fazenda, de Solitários. Até quando vamos ficar vivendo na marginalidade do mundo? Essas cenas ficam registradas em nossa memória e criam um impacto altamente destrutivo no nosso cérebro. Vamos nos prover de atitudes saudáveis, de poesia, de cidadania. Não há como apagar registros do passado, mas devemos reeditá-los. Nisso Hollywood acertou. O filme Avatar é um chute, muito bem dado, no nosso saco.