sexta-feira, 22 de abril de 2011

Irará (nascido da luz do dia)

Rousseau acreditava no homem puro em seu estado de natureza, dizendo que a sociabilidade o corrompe. Muitas das ideias deste filósofo foram confirmadas no sistema da vida contemporânea. No dia 15, deste mês, cheguei a Irará (nome que deriva de Arará, uma espécie de formiga vermelha), na Bahia. Apesar de ser uma cidade pequena do estado baiano, Irará tem nobres filhos, como o cantor Tom Zé, o pesquisador Emídio Brasileiro, Diógenes de Almeida Campos, um dos mais importantes paleontólogos do Brasil, o goleiro Dida e, para mim o mais ilustre de seus filhos, Antonio Ribeiro, meu pai.

Desbravada pelos padres jesuítas e por bandeirantes que buscavam ouro, a cidade teve como primeiros habitantes as populações dos índios paiaiás, aliás, de onde meu avô descende. Próxima a Feira de Santana, e a 137 Km de Salvador, a cidade conta com uma população aproximada de trinta mil habitantes, que sobrevivem basicamente da produção agrícola e do comércio local.

Em Irará, ao regressar à cidade após praticamente duas décadas, além de uma família maravilhosa, encontrei uma população hospitaleira, com uma rica tradição e traços marcantes de uma rica cultura, carregada pela simplicidade das pessoas e do lugar. Com o olhar de um outro, uma rápida passagem pode transformar a cidade em mais um pequeno vilarejo, iguais a tantos outros, contudo, como parte da cidade, sentimos a sua singularidade, aguçamos os nossos sentidos, para nos envolver com suas imagens, sons, odores e sabores.


Parece ser muito fácil viver em Irará, quando nos desprendemos da necessidade de transitar solitários nas multidões dos grandes centros, quando percebemos que não há uma cultura superior nas grandes cidades, quando deixamos de lado a ideia de que oportunidades de trabalho ou de estudo influenciam a nossa oportunidade de sermos seres humanos. Aliás, senti-me mais humano em Irará, em contato com o outro, com as estórias, com a natureza. Descendo para a Caroba ou para a Jurema, na roça, essas sensações se multiplicaram e intensificaram, já que ali a cultura planejada na massificação se enfraquece e se esvai.

Sem dúvida, voltarei a Irará, novamente de passagem ou para lá viver. Ao atingir meus objetivos, agora mais imediatos e reais, encherei outras malas, dividirei o que construí em mim, para multiplicar minhas experiências com as pessoas, e delas apreender muitas, iguais aos poucos dias em que pisei nas terras daquela cidade, tão bonita quanto Roma, Évora e Buenos Aires, porém, com uma dose a mais de oxigênio e de vida.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Os Deuses Malditos - A Estética Nazista

Os Deuses malditos, originalmente sob o título de La caduta degli dei (A queda dos deuses), foi dirigido pelo cineasta italiano Visconti Luchino, sendo lançado em 1969, na Alemanha e na Itália. Hitler e o nazismo estão em segundo plano em relação ao tema principal, que é a constituição da família Krupp, dona de um grande império de usinas de aço, que inclusive, sustentava o poderio do regime nazista. No interior dessa família, as mais condenáveis atrocidades ocorrem na luta pelo poder, desde assassinatos, adultérios, incesto, bebedeiras, orgias e pedofilia.

Compondo a trilogia alemã, juntamente com Morte em Veneza e Ludwig, o filme Os Deuses Malditos está além de ser considerados mais um sobre esse triste período da história. É uma representação estética da aristocracia, da construção e manutenção do poder, dos bastidores de um movimento ideológico. Divididos em SS e SA, as tropas fieis ao sistema dividem-se entre a elegância e a vadiagem, o luxo e o lixo. Outra tema recorrente é a homossexualidade, resultando em uma decadência política e moral, cujo ápice se dá durante o extermínio das tropas das SA, que representará o fim da própria família Von Essenbeck. Vale a pena ver.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ANIVERSÁRIO DO ÁGUIA NEGRA - 21 DE MAIO - TODOS CONVIDADOS!!!

Durante muitos anos, as motocicletas ocuparam o imaginário da mente das pessoas e as telas dos cinemas, em filmes como Easy Rider, The Wild One ou Diário de uma motocicleta. Os dias atuais furtaram muito desse romantismo, em razão do trânsito caótico, a falta de respeito com os outros, o tempo cada vez mais curto, os acidentes e os assaltos. Além de tudo isso, as imagens das pessoas que gostam de rock, as tatuagens, o estilo de se vestir, ainda são associados por muitos com a deliquência ou as drogas. E é exatamente o oposto de tudo isso que encontrei nos motoclubes, especialmente no Águia Negra. Nem todo motoqueiro é um motociclista, que é uma filosofia de vida.

Sediado em São Miguel Paulista, na Av. Dr. José Artur da Nova, equina com a Av. Oliveira Freire, o tradicional motoclube existe há mais de vinte anos. Com uma rigorosa doutrina de paz, união e força, sobretudo, respeito entre os integrantes e com o próximo, além dos encontros festivos são promovidas várias ações sociais, como por exemplo, a entrega de cestas básicas. Sinto-me muito bem no Águia Negra, local que já frequento há alguns anos, influenciado pelo meu pai (centro da foto), e agora me torno também um Águia Negra, para aprender sobre motos, música, lugares e bom convívio entre as pessoas. Estou construindo o meu colete com as coisas de que gosto, os países, os cantores, a cultura, enfim, minhas influências. É o início de mais uma jornada por essa vida, com a certeza de que tenho muito a contribuir, sobretudo, coisa demais para ver e aprender. Muito orgulho de ser um novo integrante desse honrado e respeitado motoclube, entre velhos e novos amigos. Como diz o nosso hino: Sou Águia Negra e honro meu Brasão Carrego a paz no coração Sou Águia Negra, rodando esse país O importante é ser feliz.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Os escritores malditos

Pietro Arentino (Itália, 1492-1556): autor de "Diálogo das Prostitutas" e conhecido no seu tempo como "secretário do mundo", Arentino influenciou muitos outras poetas, inclusive Bocage, onde é citado no soneto Já Bocage não sou... (Outro Arentino fui, a santidade manchei). Filho de um sapateiro com uma prostituta, desenvolveu uma obra mordaz e pouco moral, o que rendia um certo temor da nobreza da época. Caso atípico na história literária, foi protegido por esses nobres, inclusive, muito admirado pelo Papa Leão X e por outros importantes religiosos, que o protegiam, obteve um prestígio que lhe rendeu vida tranquila e fortuna. Além dos poemas, escreveu peças teatrais, comédias e tragédias. Seus versos, talvez pelo caráter pornográfico, são poucos estudados no Brasil, onde seus livros são muito raros.

Lord Byron (Inglaterra, 1788, 1824): exerceu grande influência sobre os poetas românticos, tendo uma vida extremamente atribulada, em razão das numerosas amantes (segundo alguns, a primeira delas teria sido uma babá, quando Byron tinha nove anos!), geralmente casadas, das dívidas (apesar de seu título de nobreza) e denúnicas de incesto, quando se enamorou da irmã, com quem teria tido um filho. Começou a publicar seus poemas ainda muito jovem, obtendo grande fama e prestígio, pela força e qualidade de seus versos, que tiveram grande repercussão na Europa. Em 1823, Byron se une às tropas gregas na luta contra a Turquia, vindo a falecer no ano seguinte, após sucessivos ataques epiléticos. Adorado na Grécia, seu coração foi retirado e enterrado em solo grego, enquanto que seus restos mortais foram enviados à Inglaterra. Sua vida e obra representou o ideal de liberdade do homem romântico, influenciando poetas em todo mundo, como Álvares de Azevedo, no Brasil. Além dos poemas, escreveu a peça "Dom Juan". Não são muitas as traduções e biografias do autor em português, sobretudo pela dificuldade de tradução dos poemas.

Arthur Rimbaud (França, 1854-1891): como Bukowski, a poesia de Rimbaud é sinônima da própria vida do poeta, característica esta comum aos escritores malditos. De caráter simbolista, sua poesia foi escrita quando ele era ainda adolescente. Rebelde, fugia de casa com frequência. Aliou-se à Comuna de Paris, onde, provavelmente, tenha sido abusado sexualmente por soldados bêbados, época em que passou a beber em grandes quantidades e marcar seu estilo com roupas velhas e cabelos longos. Após conhecer o poeta simbolista Paul Verlaine, tornaram-se amantes e passaram a viver uma vida desregrada, regada a absinto e haxixe. Ciumento e passional, Verlaine chegou a atirar contra Rimbaud, durante uma bebedeira. Por essa relação tumultuada, e com a interferência da própria esposa, Verlaine ficou preso durante dois anos. Rimbaud desenvolveu uma série de atividades, dentre elas, tráfico de armas na África, adquirindo um carcinoma no joelho, o que lhe causou a amputação da perna. Morre com apenas 37 anos, após o agravamento de seu estado de saúde.

Marquês de Sade (França, 1740-1814): escritor libertino, deu origem ao termo sadismo, que designa perversão sexual e prazer com a dor do outro. Tece críticas à sociedade urbana e à religião, propondo uma nova ordem moral. Dentre seus livros estão 120 dias de Sodoma, Justine, A Filosofia na Alcova e Diálogos entre um padre e um moribundo, a maior parte deles escritos enquanto esteve encarcerado. Pode ser considerado um dos pioneiros na discussão da Revolução Sexual e da prática homossexual, assunto que foi abordado pela pensadora Simone di Beauvoir no ensaio "É preciso queimar Sade?". Morreu no hospício, aos 74 anos.

Charles Bukowski (Estados Unidos, 1920-1994): nascido na Alemanha, mudou-se para Los Angeles ainda criança. Sua vida é sua obra. Sem afeto familiar e com o rosto deformado pela acne, viveu e escreveu sobre prostitutas, mendigos, bêbados e miseráveis. Tinha repulsa ao trabalho formal e se alcoolizava com frequência, porém, desenvolveu o gosto pela leitura. Escreveu em quartos de pensão, recebendo menos de R$ 200,00 por mês, alimentando-se uma vez ao dia. Com o passar dos anos, foi reconhecido e traduzido mundialmente, inclusive, sendo sua obra adaptada para o cinema. Entre seus livros estão Crônicas de um amor louco, Notas de um velho safado e O Amor é um cão dos diabos.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Somos americanos, do hemisfério sul

Há algumas horas, estive no motoclube Águia Negra, e ouvi novamente uma canção de que gosto muito, chamada "Milho aos Pombos", do cantor Zé Geraldo, na voz do incrível Hélio França (sorte de quem já teve o prazer de ouvi-lo). Revisando uma apostila de História, deparei-me com a seguinte citação de Geoffrey Blainey em seu best-seller "Uma breve história do mundo": a história do mundo poderia ser escrita como uma sequência de guerras entre clãs, tribos, nações e impérios, e penso, agora eu, como somos estúpidos. Recentemente foram lançados os diários de Claretta Petacci, acerca do metrossexual (atitude e termo absurdos) ditador italiano Benito Mussolini, egocentrismo incentivado por milhares de mulheres enlouquecidas pela duvidosa beleza do fascista, prova de como os valores humanos são constestáveis. Terminou sendo arrastado, fuzilado e pendurado em praça pública, junto da amante e de outros fascistas.

Um mundo antes dividido ideologicamente em leste e oeste, ocidente e oriente, agora se divide em norte e sul, parte superior e parte inferior, posição que os homens parecem valorizar em suas práticas cotidianas. Não há nada mais podre e nojento do que alguém que olha outro ser humano de cima para baixo, na maior parte das vezes, em função do dinheiro. Ainda por esses dias, ouvi na CBN, uma entrevista em que se comentava o problema dos executivos em relação à classe C, que ascendia ao mercado de consumo, já que esses empresários não conseguiam estabelecer um diálogo com quem não era da classe A e B, por preconceito ou falta de afinidade. Haja sonrisal!!!

Então lá estava eu, ouvindo Zé Geraldo, cantor mineiro, nascido em 1944, que tematiza em suas músicas o comportamento dos homens e a barbárie das ações humanas, apesar de ainda restar no amor singelo uma fonte de água pura, algum oxigênio. Fiel a seu estilo, o cantor e compositor amargou na década de 80 a indiferença das grandes gravadoras, interessadas no boom sertanejo, do qual se negou a fazer parte, ou a ser parte, época que abriu o cenário ao "pagode" nacional. Enquanto tudo isso acontecia, que ensejou na qualidade musical que temos (que ouvir) hoje, Zé Geraldo continuava jogando seus milhos aos pombos. Três décadas depois, aqui estou eu, um pombo, alimentando-me do milho jogado pelos bons artistas que este país muitas vezes se esquece de reconhecer. Viva Meiga Senhorita, Galho Seco, Como Diria Dylan. Viva Zé Geraldo, estradeiro que não precisa da nossa mídia para fazer sua arte.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Pare o mundo que eu quero descer!!!

O Ministério do Turismo é um dos mais disputados, já que com os jogos internacionais de 2014 e 2016, transitará por ele quantias estratosféricas. Pedro Novais, o ministro convocado por Dilma, assume já com uma denúnica de desvio de dinheiro público, R$ 2.000,00, para pagar a conta de uma festinha para casais em um motel no Maranhão. O jogo pelo poder e a disputa por cargos já cheira muito mal. O mundo está cada vez pior, as pessoas estão se devorando de todas as formas, há poucas válvulas de escape a nossa disposição e temos que estar muito atentos a elas, pois os interesses vis estão enchendo nossos corações e mentes de gás carbônico. Não que o mundo um dia tenha sido só cores. Os interesses de poucos sempre movimentaram essa máquina, porém, há duas ou três décadas, não posso falar de dois ou três séculos, as coisas pareciam ser mais suportáveis.

Ontem, segunda-feira (10), assisti a três excelentes programas na TV Cultura, Roda Viva, que entrevistou o antropólogo Roberto da Mata, Cultura Documentário, sobre a vida de Charles Bukowski e A Invenção do Contemporâneo. Qual terá sido a audiência desses programas? Qual será a audiência de Entrelinhas, Vitrine, Provocações, este último, para mim, o melhor programa da televisão brasileira. Será que atingiram o Ibope de Superpop e o desfile de biquínis? Nosso tão valorizado real não é nada perto da força cambial de uma bunda. Vai começar mais um Big Brother e novamente veremos um bom jornalista se bestializar em frente às cameras. As pessoas se assustam, reclamam, matam seus filhos com as armas que eles próprios criaram, como um EUA e Afeganistão. Karl Marx dizia que o capitalismo encerra em si os germes de sua própria destruição. Estava absolutamente correto, mas nos escondeu que essa destruição seria lenta e extremamente dolorosa.

José Saramago criticava a religião e a política, dizendo que vivemos em uma falsa democracia, uma democracia mantida e voltada para poucos. Basta olhar as escolas, os hospitais, o lazer, a moradia, a condição de vida de 98 % da população. Não dá mais para acreditarmos e nos conduzirmos como se vivêssemos no Planeta Xuxa. Ontem assisti ao documetário sobre Bukowski, o último escritor norteamericano maldito, que tematizou sua vida e sua obra com prostitutas, álcool, sexo, pessoas miseráveis, experiências escatológicas (excrementos). Mesmo reconhecido, famoso e consagrado, o alemão que viveu desde cedo no submundo de Los Angeles, não exigiu para si o estrelismo, a fama, os holofotes. Conquistou apenas o direito de viver como acreditava, entre os mesmos vagabundos. Tendo escrito por vários anos por U$ 100,00 ao mês (R$ 169,00), com apenas uma refeição diária (uma barra de cereal antes de dormir), construiu uma obra respeitada por muitos acadêmicos, vertida para o cinema, e claro, pelas pessoas comuns e incomuns, como ele, publicando livros como Pulp, Hollywood, Notas de um velho safado, Ereções, Ejaculações e Exibicionismos e Crônica de um amor louco, além de várias poesias inéditas no Brasil. Bukowski nos mostrou um pouco da realidade de um mundo que lutamos para não enxergar, mas que é o nosso mundo.

Há muita hipocrisia na sociedade: perdemos a saúde, não mais com o álcool ou com as noites em claro, mas com a Claro, a televisão, com os móveis não entregues, quando entregues, não montados, com as enchentes, com os ônibus lotados, com o trânsito que rouba 20 % do nosso dia. Perdemos a saúde com o cartão de crédito, com os bancos, as músicas que entram pelos nossos ouvidos, sem que a queiramos ouvi-la, com a obrigação de votar para novamente sermos enganados, com a suspensão quebrada pelas ruas esburacadas, do carro que achamos que é nosso, mas que nos três primeiros meses do ano temos que pagar a parcela "do" Estado e a taxa "da" Prefeitura (aquela mesma que foi usada na conta do motel). Nosso suor não é nosso, pois grande parte dele pinga nos cofres públicos (e deles para os privados). Achamos que somos superiores aos animais e aos outros seres humanos, e isso nos traz felicidade. Vivemos em um país de uma legislação hipócrita, em um Mundo feudal civilizado e com a certeza de que evolução não é sinônimo de melhora.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O Segredo da Crisálda - lançamento

No dia 29 de janeiro deste ano, na Rua Henrique Schaumann, 777, será lançado o livro O Segredo da Crisálida, no qual participo com o poema Écrivaillerie. A opção pelo título em francês surgiu por dois fatores, um empírico, outro expressivo. Empírico porque na época em que o escrevi, há um ano, estava fazendo um curso intensivo de francês, expressivo, porque o significado desta palavra, que deve ser de alguma forma buscado pelo leitor, revela, ou ao menos contribui, para a formação do significado do próprio poema, em sua temática. Ao falar de amor, compõe-se a fala sobre o fazer poético, tema principal deste poema.

Esta é a minha terceira paricipação em antologias, duas de poemas e uma de contos, e fiquei muito feliz ao receber o miolo da obra. Na apresentação, Andréa Catrópa, organizadora da obra, doutoranda em teoria literária e coordenadora do programa Ondas Literárias, escreve que "no caso da temática, predominam textos que recorrem a tópicos tradicionais da lírica, como o amor, o tempo, a indagação metafísica e os questionamentos sobre o próprio fazer poético. Mas surgem, também com força, referências a elementos da fantasia e do sobrenatural, recorrendo a um encadeamento narrativo que permite a criação de mundos paralelos, não referenciais às situações cotidianas."

Nesta antologia, predominam os autores ligados às áreas das Letras, de graduandos a doutores, mas também participam profissionais de outras áreas do conhecimento, como historiadores, roteiristas, bibliotecários, geógrafos e jornalistas, enriquecendo o conhecimento de mundo que permeia os textos.

Em Ecos da Alma, publiquei dois poemas, um que fiz imediatamente após receber um e-mail de alguém com quem convivi e por quem tive um sentimento muito intenso e bonito, mensagem que trazia um pouco da temática nela expressa, e outro que escrevi em Portugal, sob a estátua da poetisa Florbela Espanca, na praça de Évora. Dois momentos inspiradores. São pequenos recortes de experiências que vou construindo lentamente, e que na gaveta, ou melhor, pelas pastas do Windows, vão constituindo uma antologia própria.

Nossas palavras


Diga-me tuas palavras,

Aquelas que gosto de ouvir,

Que ressoam pela tua língua no meu corpo.


Direi também as minhas,

Coladas com os teus sons,

Quando nossas línguas se tocarem entre si.


Assim se dirão as melhores frases,

As mais intensas e poéticas já construídas,

Cheias de tons, estilo, imagens e símbolos.


Não queiram estudar a nossa sintaxe,

Somente nós a entendemos, só nós sabemos explicá-la.

Faz-me calar, aliás, faz-me dizer apenas as nossas palavras.


Vozes da poesia


Posso sentir as palavras que o vento me traz,

Mais do que isso, posso vê-las.

São cantadas por Mariana e Florbela,

Correm os vastos campos do Alentejo,

Alimentando os ares de vinho e cores.


Homens passam, carros passam, os dias passam,

Contudo, cá e lá estão os versos de amor,

Os versos de dor, os versos de alma.

E a condição de ser humano se renova

Termina o poema, permanece a poesia.


Lê-lo, pois, é permitir extasiar-se,

Destruir as aflições pertencentes ao cotidiano,

Por poucos minutos, em que enxergamos

Com os olhos do poeta, com a música da poesia.

Passamos a ouvi-la pela eternidade dos anos.


A matéria palavra


As palavras pesam, em silêncio,

As pessoas não,

Pois são imagens retidas no tempo,

As palavras, no coração.


No coração se sente a dor maior,

Do que o tempo não matou,

As palavras, vivas no pensamento,

São eternas em seu pesar.


Não me livro das palavras,

No meu livro, não são sons, são matérias.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O caso Cesare Battisti

Para escrever sobre o complexo caso Cesare Battisti, reli com atenção um texto da graduação, chamado "Il profilo di un secolo", (podemos traduzir como "O perfil de um século") de Giovanni De Luna, a fim de entender um pouco mais as circunstâncias políticas que atravessou e, podemos dizer, atravessa a Itália ainda hoje. O país viveu uma grande aceleração industrial na virada para o século XX, raízes da participação operária no cenário econômico italiano: energia hidroelétrica, indústria mecânica, construção de ferrovias, Banco da Itália, serviços públicos e intervenção do Estado. Desenvolve-se a questão meridional: a separação econômica entre o Sul e o Norte da Itália. Inicia-se um processo de emigração nunca mais visto na história do país, cujo ápice deu-se em 1907. O sistema de fábricas modifica o cotidiano do país, expande-se a atividade operária, em detrimento às atividades do campo. Forma-se a burguesia, em meio à urbanização, que ao contrário dos operários, cujos salários eram empregados na alimentação (sobrevivência), passam a acumular capital. Os efeitos econômicos atingiram também o sistema político. Consciência dos direitos civis, formação do Partido Socialista, política fortemente autoritária (idade crispiana), crescimento da esquerda, atividade sindical, política de expansão territorial na África: povoamento (por que será que há tanta miséria hoje naquele continente?...), BENITO MUSSOLINI (ex-socialista): guerra e direcionamento da opinião pública. "A primeira grande guerra tinha estabelecido um nexo estreitíssimo entre a violência e os comportamentos coletivos". Depois de muita violência, Mussolini "marcha sobre Roma" para conquistar o poder, sem a necessidade de combate, e instaura o Fascismo e o Estado totalitário, poder pessoal de Mussolini e o cancelamento das liberdades: "se o fascismo foi uma associação para delinquir, eu fui o chefe daquela associação delinquente". A partir daí, toda violência física (prisões e assassinatos, como a longa detenção do líder comunista Antonio Gramsci, morto na prisão), social e política que já conhecemos, com o agravante da tentativa de transformar toda a sociedade em facistas. Foi instaurada a política da segmentação: operário deve estar com operários, mulher com mulheres, estudante om estudantes, sem a possibilidade de interação. Fundou-se, pasmem, o Instituto Facista de Cultura. A economia entra em crise. Sob a dependência econômica alemã e com o exército enfraquecido, a Itália declara guerra à França e à Grã-Bretanha, em 1940. Sem condições de sustentar a guerra, Mussolini se refugia no Norte (República Social Italiana), dividindo a Itália em duas, sendo dominada pelos americanos na parte sul. Em 28 de Abril de 1945, Mussolini é capturado e fuzilado. A partir daí, o país luta para se reconstruir, e a Guerra Fria (americanos X soviéticos) gera efeitos na Itália, contrapondo direita e esquerda. Aí se inicia pontualmente a história em que se envolve Cesare Battisti, e como se pode ver, é a própria história italiana, desde a unificação em 1860.

A sociedade italiana passa por profundas transformações sociais, os operários protagonizam o boom ecônomico (1959-62), mas a recessão explode no país. Em 1968-69, período conhecido como biennio rosso, as lutas operárias e estudantis agitam as universidades, as fábricas e as praças italianas. Da queda do fascismo a 1974, sucederam-se na Itália trinta e seis governos. De 1970 a 1980, período conhecido como anos de chumbo, ocorreram as manifestações mais extremas de um fenômeno terrorista em uma fase de aguda crise social e de instabilidade política, tanto na direita (estratágia da tensão e tentativa do retorno de um regime autoritário) quanto na esquerda (comunistas revolucionários), caracterizada pelo uso da violência. Houve muitos mortos e feridos, inclusive de inocentes. Os jornalistas Walter Tobagi, do Corrieri della Sera e Carlo Casalegno, do Stampa, foram assassinados. A década seguinte seria marcada pela nova ordem pública, da criminalidade organizada, a Máfia, la Cosa Nostra. Na década de 90, a reorganização política ascendeu o nome do atual primeiro ministro, Silvio Berlusconi.

Dentro desse contexto histórico, conturbado e complexo, que Cesare Battisti atuou na esquerda terrorista durante os anos de chumbo. Ele é acusado de quatro assassinatos, dos quais nega a autoria, sendo julgado pela delação premiada de seus supostos comparsas. O governo Lula negou o pedido de extradição para que Cesare cumpra prisão perpétua na Itália, o que gerou um clima de animosidade entre os dois países, inclusive com a ameaça da suspensão da relação diplomática e bloqueio de acordos entre essas nações. Os jornais italianos no final de ano e primeiros dias de janeiro criticaram veementemente a atitude de Lula, reportando-se a uma decisão inexplicável e inaceitável. O presidente italiano escreverá uma carta à Dilma, pedindo que reveja o posicionamento firmado. O fato é que o Brasil não quebrou o tratado com a Itália, já que sob a evidência de crime político poderia negar extradições. Por outro lado, pesa nas costas do PT ações violentas contra instituições e pessoas, o que poderia respaldar a permanência do italiano em nosso país. Na Itália, a imprensa de esquerda apoia a extradição, mas não é uma esquerda confiável, já que há muitos interesses além de posicionamentos políticos ou ideológicos., inclusive nos anos de chumbo. Berlusconi, chefe de governo, racista, xenófobo e fascista, recuou. Disse que o "crime" parece político e que "o Brasil é um país ao qual somos ligados por uma antiga e sólida amizade", que esse fato não influenciará essa relação. Para mim, Lula agiu corretamente. Ainda é muito cedo para que se tenha um entendimento preciso sobre a verdadeira história de Battisti. Caberá aos ministros do Supremo Tribunal Federal reavaliar o caso e decidir a permanência ou não de Cesare Battisti em nosso país, afinal, ele ainda está preso, o que, de certa forma, não contraria a decisão proferida pela justiça italiana.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Mande notícias do mundo de lá...

Walter Benjamim, em seu texto "O narrador", coloca-nos a frente de duas formas de experiências próprias dos narradores. Uma delas, é a do camponês, que nunca saiu de sua terra, assim, alimenta-se de histórias provindas de seu conhecimento sobre a tradição. A outra é aquela do viajante, aquele que "vem de longe". Um dia, saindo de Irará, na Bahia, meu pai deixou de ser camponês e foi se aventurar como viajante, traçando um destino de milhares de brasileiros. Em cinco décadas construiu sua vida e a de seus filhos. Não escolheu ser viajante, mas o foi. Agora, por escolha própria, retorna para o mundo do camponês, para viver e lutar em uma realidade que talvez esteja muito diferente daquele ilustrada para nós, durante as maravilhosas estórias dos lugares e das pessoas que reencontrará. Partiu para sua cidade e deixou os cômodos enormes, um silêncio incômodo, uma rotina ainda a se descobrir.
Dizem, alguns, que o sentimento da saudade, a tristeza causada por ela, é fruto do nosso egoísmo, já que é tão somente a impossibilidade de termos aquilo que a pessoa poderia nos oferecer. Pode ser que seja verdade, ou não. Quando penso nisso, cheio de saudade, sou incapaz de pensar sobre essa afirmação, confirmá-la ou negá-la, pois não tenho uma distância segura do próprio fato para poder escrever sobre ele.
Com a merecida homenagem, sabendo que "a vida é pra valer", como cantou Vinícius, faço deste o último texto do ano, dedicando-o juntamente com a música abaixo, a uma pessoa que sempre será, ainda que a dois mil quilômetros de distância, um exemplo de vida para mim, assim como também continua sendo a minha mãe. Que Deus, quem você insistentemente buscou me apresentar, ilumine sua estrada e que o ajude a vencer as lutas diárias, aliviando do seu peito o mesmo sentimento de saudade que deve estar levando junto a ti, e que possa usufruir dos momentos de felicidade e paz. Em poucas horas da partida, já foi capaz de me fazer recordar profundamente desse sentimento tão estranho e desorientador, que é a saudade, "nossa alma dizendo para onde ela quer voltar", como disse Rubem Alves.

Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo

Esses seus cabelos brancos, bonitos, esse olhar cansado, profundo
Me dizendo coisas, num grito, me ensinando tanto do mundo...
E esses passos lentos, de agora, caminhando sempre comigo,
Já correram tanto na vida,
Meu querido, meu velho, meu amigo
Sua vida cheia de histórias e essas rugas marcadas pelo tempo,
Lembranças de antigas vitórias ou lágrimas choradas, ao vento...
Sua voz macia me acalma e me diz muito mais do que eu digo
Me calando fundo na alma
Meu querido, meu velho, meu amigo
Seu passado vive presente nas experiências
Contidas nesse coração, consciente da beleza das coisas da vida.
Seu sorriso franco me anima, seu conselho certo me ensina,
Beijo suas mãos e lhe digo
Meu querido, meu velho, meu amigo
Eu já lhe falei de tudo,
Mas tudo isso é pouco
Diante do que sinto...
Olhando seus cabelos, tão bonitos,
Beijo suas mãos e digo
Meu querido, meu velho, meu amigo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Música de qualidade

Roberto Frejat

Roberto Frejat nasceu em 1962, no Rio de Janeiro. Aos 19 anos, iniciou a estória de uma banda que mais tarde, com a entrada de Cazuza, formaria o Barão Vermelho, um dos principais conjuntos de rock dos anos 80, ao lado da Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Biquini Cavadão, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii e outros, em uma das décadas em que a música brasileira produziu o que há de melhor em sua história, desde o início do século XX, com as bases do samba (Noel Rosa), o baião de Luis Gonzaga, a Era do Rádio, a Bossa Nova, a Tropicália e os grandes Festivais, ritmos que influenciaram o guitarrista, compositor e cantor Frejat, além de nomes internacionais como Beatles, Stones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Bob Dylan e Santana.

Após a saída de Cazuza da banda, em 1985, Frejat inicia sua carreira de intérprete, sendo ainda hoje um dos maiores cantores da nossa MPB e emplacando sucessos como O Poeta Está Vivo, Puro Êxtase, Por Você, Segredos, Amor para Recomeçar (veja o vídeo).

Dave Matthews Band

Dave Matthews nasceu em 1961, na África do Sul, indo morar em Virgínia, nos Estados Unidos, onde liderou a formação da Dave Mathews Band, influenciada por nomes como Led Zeppelin e Deep Purple, surgindo um grupo musical singular pela potente e versátil voz de Dave e pela qualidade musical de toda a banda, que também utliza instrumentos clássicos em suas apresentações. Basta dizer que Leroi Moore é um consagrado músico nos mais inimagináveis instrumentos de sopro, compondo o Dave Matthews Band, juntamente com Boyd Tinsley (violinista), Carter Beauford (baterista), Stefan Lessard (baixista), Peter Griesar (tecladista) e o cantor e guitarrista Dave Mathews.

O primeiro show, em 1991, foi para um público de 200 pessoas. A partir daí, com a participação direta dos fãs que iam se formando, a banda cresceu e se consagrou no cenário internacional. A música Crash ficou em segundo lugar na Billboard (1996) e Too Much (veja o vídeo) foi a responsável pela consquista do Grammy Award.

Órfão desde jovem, com a irmã assassinada na África, pelo marido, Dave trabalhava como barman antes de se destacar no mundo da música. Sempre determinados na luta contra o racismo, Dave e sua banda representam o que há de melhor na música americana das últimas duas décadas. Clique e ouça outra música da banda!

Site oficial: http://www.davematthewsband.com

domingo, 28 de novembro de 2010

Fim do tráfico no Rio de Janeiro?

Não sei a resposta para essa pergunta. A polícia invade o Morro do Alemão, dizem as manchetes. Há muito se confunde quem é a polícia, quem é o bandido. A palavra "invade" é bem e mal utilizada. Bem utilizada, porque revela a situação caótica do Estado do Rio, pois demonstra que esta área tem muitos proprietários: os traficantes. Mal utilizada porque a polícia não invade uma área que é pública, onde é de ofício que ela atue.
Hoje ouvi um "jornalista" dizer: "Por que quando perguntamos o número de feridos, não nos responde? Será que estão sonegando a informação?" Quanta hipocrisia. Querem tirar da boca de qualquer policial uma resposta que deve ser passada por aquele que tem essa incumbência. Imagine se cada policial operacional for responder a essa questão: o mesmo jornalista diria que a polícia não tem controle do que está ocorrendo, que as informações são desencontradas. No judiciário, há juízes que discutem indulto de Natal também para traficantes. Alguns familiares criticam a ação, já que seus parentes, que são inocentes, estão sendo submetidos à rigorosa identificação.
Chega de acreditar que podemos viver como se estivéssemos numa sociedade perfeita, na Islândia ou na Noruega. Na guerra morrem pessoas inocentes, e o que acontece no Rio de Janeiro, o que é? A polícia está sempre em desvantagem, não sabe quem é o bandido, quem é o cidadão, enquanto os policiais estão visivelmente identificados. Além disso, luta ao lado da covardia dos bandidos, que utilizam a população como escudo. A questão não é quantas pessoas morrerão nessa ação. A questão é quantas pessoas morreram, morrem e continuarão morrendo na mão desses monstros, desses bandidos, do tráfico de drogas.
Os policiais perderam suas férias, suas licenças, seus convívios familiares. Estão expostos, com o intuito de devolver a dignidade de pessoas que nem conhecem, que muitas vezes os criticam. Os policiais estão oferecendo a própria vida para corrigir problemas que se agigantaram pela deficiência educacional, política, social e econômica. Lá estão, ao julgo de todos, para serem heróis ou bandidos. A hora é agora. Que a população, o judiciário, o ministério público e a imprensa façam sua parte. Com certeza, aqueles homens de farda que diuturnamente estão vivendo naquela horrenda realidade, longe dos grandes banquetes, das confortáveis poltronas e do carinho dos familiares estão fazendo a sua. Parabéns a todos que estão devolvendo o Rio de Janeiro à população, demonstrando que com um pouco de vontade política os policiais sabem como agir.