sexta-feira, 14 de maio de 2010

"La Strega e il Papa", de Dario Fo

Os Parlapatões estreiam a peça “A Bruxa e o Papa”, da obra homônima de Dario Fo, “La Strega e il Papa”, escrita em 1989. Dario Fo (1926), ator, comediante e teatrólogo italiano, de família antifacista, aborda temas polêmicos em suas obras, por meio da comédia, causando ao mesmo tempo riso e mal estar. Nesta peça, por exemplo, o texto de Fo está direcionado para a burocracia da Igreja, não deixando de tocar em pontos delicados, como o aborto, o celibato e as drogas.
Na montagem, o grupo de teatro paulista intensificou as críticas com intervenções do cenário atual, por exemplo, quando ironiza os padres cantores brasileiros. As piadas são muito bem colocadas durante a apresentação e até mesmo quando os diálogos em cena parecem exaustivos e correm o risco de se perderem, o texto ganha novo fôlego, e as gargalhadas e aplausos passam a interagir com os atores no palco.
Com ótimas interpretações, sobretudo do Papa, do médico e de um alcoólatra, a peça acaba por prender o telespectador do começo ao fim e entre alguns bons momentos de risos, determinadas situações parecem constranger a plateia, por exemplo, quando há a citação mais do que direta de uma expressão religiosa, ou de classes sociais desfavorecidas, riscos que, segundo os atores, correspondem às comédias, mas que o público deve entender como uma forma de proposição para que se pense sobre pontos importantes da nossa sociedade, e não como um desmerecimento a este ou aquele seguimento, o que concordo plenamente. Gil Vicente já nos alertava que os males não estão nas instituições, mas nas pessoas que delas se servem.
Dario Fo enfrentou sérias dificuldades sociais, econômicas e ideológicas, inclusive, escondendo-se quando foi recrutado à guerra na época em que Mussolini tentava voltar ao poder na Itália. Nada disso foi suficiente para abalar a excentricidade do Prêmio Nobel de Literatura (1997). Mesmo que muitas de suas apresentações sejam vistas como blafêmias, Dario Fo é um ícone da arte no mundo, um homem em que a verve artística supera qualquer limite e padronização.
Serviço: Teatro Arthur Azevedo. 480 lugares. Av. Paes de Barros, 955, Mooca, Zona Leste. Tel. 2605-8007. Estacionamento próprio. De 7/5 a 13/6. 6ª e sáb., 21h. Dom., 19h. R$ 10.

"Era una utopía, preciosa como todas las utopías."

Indicação de um blog de extremo bom gosto, que poeticamente nos fala de literatura:
http://paisajesdeunarealidadutopica.blogspot.com/ (em espanhol)

sábado, 27 de março de 2010

poeira: demônios e maldições

Nelson de Oliveira publica mais um livro, pela editora Língua Geral: poeira: demônios e maldições.
Conheci primeiro o professor universitário Nelson, durante um curso em que eu estudava para ser professor universitário. Por consequência, passei a conhecer o Nelson como pessoa, durante quatro sábados, tempo curto, mas revelador. Por fim, conheci o escritor Nelson de Oliveira. Não sei qual é o que mais admiro, por um motivo claro: o Nelson de Oliveira, escritor, é o professor doutor Nelson, também de Oliveira, e o homem Nelson. Sua única fantasia é o talento, para escrever e para ensinar. Não há personagens, ele é autoria de si mesmo. É daquelas pessoas que nos causam inveja, porque ele escreve o que gostaríamos, antes mesmo de ler, de escrever. Uma inveja que nos motiva, que nos faz acreditar. Ele nos mostra que as humanidades sobreviveram, sobrevivem e vivem, não sobre, mas entre nós. Mesmo com tantas dificuldades por que passamos na cultura, ele cria, compulsivamente, rompe barreiras e nos presenteia com cada nova livro. E ele existe! Podemos tocá-lo, talvez nem ele mesmo saiba o que representa para tantas outras pessoas, ou não importa sabê-lo. Mais do que um ídolo, um ícone, um exemplo, Nelson nos permite senti-lo como um amigo, e este talvez seja o grande segredo de todo o sucesso desse grande romancista, por que não dizer, esse grande contador de estórias, que adoramos ouvir.
Tentemos enquadrar sua literatura contemporânea dentro de algum conceito: comecemos por saber que Nelson gosta da ficção científica, que é filho da contemporaneidade, que é artista plástico, que é urbano. Muito nos ajuda, a nos confundir. Nelson ignora, neste livro, a própria contemporaneidade (esta entre aspas), a urbanidade, que trata de excluídos, do dinheiro, da decadência arquitetônica, do verossímil. Ele trata de tudo isso e de nada disso. Buscando referência no meu próprio blog, e formação, ele é um escritor do realismo fantástico, uma realidade meio estranha, que me faz lembrar, ou melhor, não esquecer, de Italo Calvino, e um de seus livros mais impressionantes, traduzido por “Se um viajante numa noite de inverno”. Quem o me apresentava, em 2002, era o professor Jorge de Almeida, da USP. Olha, dá até para dizer: “Estás prestes a começar a ler o novo romance poeira: demônios e maldições de Nelson de Oliveira”, mas Nelson é muito mais maldoso do que o mestre italiano, mais contemporâneo, nonostante il facismo statale, Italo era mais bom moço, em seu Il visconde dimezzato. O escritor italiano vivia entre a segunda guerra mundial e o mundo real. Nelson vive (e sobrevive) entre o nosso mundo real e o nosso mundo mimético, daí, o nosso estranhamento. Acho que o grande marco é: Nelson se utiliza da metalinguagem demonstrando a insuficiência (e inutilidade) dos conceitos primários de literatura falando de literatura, de teatro falando de teatro (aliás, nesta área, Hamlet nos mostra que isso não tem nada de banal), de jornal falando de jornal: a metalinguagem em seu livro nos ensina, na prática, a escrever. O realismo fantástico, de Calvino, e o neo-realismo italiano, foi um conjunto de vozes, dito “dopoguerra”, que procurava entender e reconstruir um mundo desconstruído. Nisso, Nelson vai além, por uma questão diacrônica, ele traz para a prática mimética da literatura a possibilidade de construir, mais do que isso, de transgredir, para ampliar o significado, por exemplo, com referências que vão e vem, reais ou fictícias, possíveis no universo no qual somos imersos; uma trama que nos prende ao enredo, cujo mistério passa a se revelar “in media res” no total de páginas do livro, as nuances linguisticas, imagens que se entrelaçam, repetições que significam, palavrões estilísticos, digo, literariamente “invulgares”, assim como em “O oitavo dia da semana”, o bom humor, a relação fala e escrita, subvertendo normas de pontuações, mesmo que ainda tão tradicionais, que nos faz pensar em novas recorrências do discurso indireto livre, já que ele nos obriga a adotar novos critérios para identificar os interlocutores, critérios novos de linguagem e estilística, as questões políticas subjugadas às questões literárias, outras que aqui não cabem, que não percebi, que perceberão e que nunca perceberei, talvez nem mesmo o autor. É fácil explicar os parágrafos e capítulos curtos pelo caráter folhetinesco, mas difícil é construir a força literária presente em muitos desses curtos parágrafos. A literatura do escritor está intimamente relacionada com o nosso cotidiano, com o estranho, com a psicologia, com a metalinguagem. Nelson é estranho, é fantástico, é maravilhoso, é tudo isso, menos definível. Ele nos mostra eternos conflitos entre o sexo masculino e o feminino, a previsibilidade do comportamento humano, que se adapta a situações mais corriqueiras, como as recorrentes interpretações de sonhos e pesadelos ou o cenário de uma chuva torrencial, detalhada em cada um de seus (nossos) movimentos. Metalinguagem, ficção, nosso quarto, recheado de tantos livros. É sobre isso que passamos a nos preocupar, é isso que passamos a perceber, a cada novo capítulo de poeira: demônios e maldições. Umberto Eco, em sua obra “Sulla leterattura”, disse que “se la generazioni future arriveranno ad avere un buon rapporto (psicologico e fisico) con l’e-book, il potere de Don Chisciotte non cambierà”. O semiólogo italiano, que como Calvino, e Nelson de Oliveira, já nos encantou com suas fábulas, estórias, “criancices” e historicidade, em seu livro Baudolino, quis dizer que, independentemente do meio (Jakobson chamava de canal), a obra sempre prevalecerá. Concordo e discordo. Tendo em mãos (nas duas) o exemplar do livro poeira: demônios e maldições, recém-publicado (e autografado), não posso o imaginar por completo sem sua capa, sem suas cores, sem a relação de linguagens ali estabelecidas e, claro, sem meu autógrafo, talvez, pela simbiose pertinente do autor-escritor e artista plástico (e seus colaboradores). Nelson rompeu, Nelson conciliou. E não percebo nem mesmo a importância de se discutir personagens planos ou esféricos. Raskólnikov era muito esférico; Josef K. não teve oportunidade de o ser, pois, não sabendo de seus pecados, não pôde se corrigir (morreu como um porco)... Acima desta discussão, personagens esféricos ou planos, é a criação que efervesce no autor. Nada mais contemporâneo. Pessoas burocráticas, sentimentos vis, mas humanos, demônios, gnomos, livros, censura e literatura... ficção e realidade, o outro e nós mesmos. Enfim, um brinde a uma das melhores expressões da prosa literária brasileira.

sábado, 20 de março de 2010

O que significa aprender um novo idioma?

Muitas qualificações se voltam para o interesse exclusivo no mercado de trabalho. O tempo é curto, e necessário. Aprender um novo idioma requer, sem dúvida, organização, empenho, objetivo, como todos outros conhecimentos técnicos, mas, ainda (e mais ainda), uma grande dose de amor. Por que amor? Precisamos nos envolver com a cultura, com as pessoas, com os livros, com o cotidiano, com a História, esta com letra bem maiúscula. Daí, talvez, meu distanciamento, inútil e efêmero, com a língua inglesa. Tenho interesses frios com esta língua, não ignoro sua necessidade, sua qualidade, pois estaria, por exemplo, ignorando Shakespeare, Joyce, até mesmo Pessoa, mas prefiro as latinas. A cultura latina é para mim mais interessante (ressalva feita à russa), e isso é muito particular. Assim, optei pela graduação em italiano, estou fazendo o francês, matriculei-me no espanhol. Não me diga que esta última língua é fácil de se entender, quero novamente mergulhar na cultura, na formação do povo, em seus artistas, e me surpreendi já na primeira aula. Nenhum aprendizado é fácil. Aprender um novo idioma é estar em contato com outras milhões de pessoas, buscar chegar as suas origens, tentar entender seus cotidianos, abrir as portas para novos conhecimentos. Talvez, ler o primeiro livro no original; o primeiro beijo de muitos outros. Fazer parte do mundo. E nesse mundo cada vez mais multifacetado e interligado, aprender uma nova língua é se sentir cada vez mais humano, já que é por meio da linguagem que nos desenvolvemos, é por meio dela que realmente mostramos quem nós somos, o que queremos do outro e o que temos para oferecer a ele. Didaticamente, há sempre uma segunda, terceira, quarta língua..., no íntimo, há línguas que se relacionam, que convivem, que se completam. Viva todas as línguas do mundo!!!

sexta-feira, 5 de março de 2010

O mundo poético em um mundo patético


No livro “Cartas a um jovem poeta”, Rilke aconselha voltar-se para dentro de si mesmo e sondar as profundezas de onde vem sua vida. Sentir a necessidade de dizer, simplesmente para reconstruir o que parece estar fragmentado. Assim fazia Anna Akhamátova. Deixar fluir essa força que vem não se sabe de onde e corta nosso cotidiano de forma tão suave, pois não obriga que a sua voz seja ouvida, há de se ter vontade de percebê-la, e uma boa dose de sensibilidade.

Poesia, do grego poesis, fazer. Hoje somos feitos, pouco fazemos. E a poesia nos liberta, e isso assusta. Esses dias recebi um e-mail, daqueles cuja lista de destinatários representa noventa por cento da mensagem, uma barbárie: divulgava uma suposta resposta escolar (que nem acredito que seja real) aos versos de Camões, “Amor é fogo que arde sem se ver...”, em que a aluna criava outro “poema”, nele atribuindo ao escritor português problemas de saúde, entre eles, falta de sexo, ainda lhe prescrevendo vários medicamentos. A mensagem dizia que pela criatividade, ela havia tirado nota dez. E o título da mensagem: “interpretação de texto”. Poesia não é interpretação, é análise, é o sentir. Quanto ao sexo, o problema atual é o excesso, muitas vezes, só na cabeça.

Estamos perdendo a capacidade de sentir, de olhar para nós mesmos, de escutar o que o outro tem a dizer. E nesse aspecto, a poesia, a literatura pode nos ajudar. A literatura em perigo, como escreveu Todorov, coloca a nossa sociedade em perigo. Bakhtin nos revela a função prática da arte para o ser humano: “devo responder com minha vida por aquilo que vivi e compreendi na arte, para que o vivido e o compreendido não pareçam sem ação na vida”.

A cultura de massa, movida por grandes interesses pequenos, está contribuindo para o desenvolvimento de um mundo cada vez mais patético. A televisão, sua grande aliada, nos destroi, dentro e fora dela. É deprimente ver um bom jornalista e escritor submeter seus textos a um modelo de degradação mental, que os tornam chatos e apelativos, pois já se adequaram às exigências do programa, para uma população cada vez mais privada de uma postura crítica. Postura crítica há muito jogada na descarga. Basta ver os duvidosos resultados do veredicto popular.

Proibiram o comercial da cerveja “devassa”, sob a alegação do excesso de sensualidade de Paris Hilton, que seria ofensivo às mulheres. O anúncio não pode mais ser veiculado no intervalo de “Viver a vida”, mas as mulheres tipificadas na novela, essas continuam poluindo nossas noites, por meio de um enredo que se alicerça num jogo (nada intrigante) de traições, mentiras, futilidades. E a estória de superação de uma pessoa com deficiência física (por favor, nada de necessidades especiais, eufemismos hipócritas), perde-se no marasmo, na construção de frases e atos feitos, típica de péssimas tramas televisivas. O que falar de “Tempos Modernos”? Há dois males neste país que se alimentam numa dialética etérea: corrupção e hipocrisia. Antigamente, relutava aceitar a ideia de que as pessoas fossem construídas pela televisão; hoje, sem dúvida, quando não temos em que nos apoiar, estou certo de que isso seja verdade.

A literatura ou outras formas de conhecimento não salvarão o mundo, nem mesmo reclamam por atenção. Ela simplesmente existe, rica, cheia de humanidade, experiências, lições que se tivéssemos algum tempo para aprendê-las, não estaríamos sofrendo com monstros que alimentamos em nosso dia a dia, para depois lamentarmos as feridas que eles vão abrindo em nossos corações.

Termino este curto desabafo com um trecho de uma carta, escrita por Dostoiévski a seu irmão, presente em um livro que comprei na Itália, Lettere sulla creatività:

Riesco abbastanza bene nello studio del “significato dell’uomo e della vita”; posso studiare i caratteri mediante la lettura degli scrittori in compagnia dei quali trascorro liberamente e gioiosamente la parte migliore della mia vita; non ti dirò più nulla su di me. Mi sento sicuro di me. L’uomo è un mistero. Un mistero che bisogna risolvere, e se trascorrerai tutta la vita cercando di risolverlo, non dire che hai perso tempo; io studio questo mistero perché voglio essere un uomo.

Tenho grande sucesso no estudo do “significado do homem e da vida”; posso estudar os homens mediante a leitura dos escritores em companhia dos quais passo livremente e alegremente a melhor parte da minha vida; não te direi mais nada sobre mim. Me sinto seguro de mim. O homem é um mistério. Um mistério que se necessita resolver, e se você passar toda a vida procurando resolvê-lo, não diga que perdeu tempo; eu estudo este mistério porque desejo ser um homem.

sábado, 23 de janeiro de 2010

O inferno dos vivos, por Italo Calvino

Adoro este texto de Italo Calvino, presente no capítulo final de seu livro, As cidades invisíveis.

"L'inferno dei viventi non è qualcosa che sarà; se ce n'è uno, è quello che è già qui, l' inferno che abitiamo tutti i giorni, che formiamo stando insieme. Due modi ci sono per non soffrirne. Il primo riesce facile a molti: accettare l'inferno e diventarne parte fino al punto di non vederlo più. Il secondo è rischioso ed esige attenzione e apprendimento continui: cercare e saper riconoscere chi e cosa, in mezzo all'inferno, non è inferno, e farlo durare, e dargli spazio."
(Italo Calvino, Le città invisibili, 1972)

"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: procurar e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço"

Política brasileira: uma piada de muito mau gosto!

Não queria começar o ano sendo chato, mas em época de eleição como não sê-lo? Somente me omitindo, não quero fazê-lo. Há muito desacreditei na política, melhor, nos nossos políticos. Queria que esse senso comum que agora escrevo realmente representasse uma mudança de atitude, de mundo, para o nosso próprio bem. Não sou fã do Milton Neves, mas ele disse uma grande verdade: “Precisou morrer para a conhecermos”, referia-se a Zilda Arns. E o Bambam, do Big Brother, quem não conhece? Aí me socorro de Drummond, mas antes, as enchentes... estão morrendo PESSOAS, e parece que é maldade da natureza, e não fruto de uma política mesquinha, corrupta e ordinária que existe nesse país. Ah, mas o povo tem sua parcela de culpa, joga lixo nas ruas... esse mesmo povo que paga IPTU, IPVA, IR, Ietc... e que já não aguenta mais. Cadê a educação para esse povo, cadê as campanhas educativas..?!! existem? Ah, não há verbas, mas dinheiro para propaganda política, tem de monte. Não aguento mais ver comerciais de plano de expansão. Quem se serve do transporte público, sabe que isso é balela, piada de mal gosto. Onde vemos aquelas pessoas felizes no metrô, nos ônibus, nos trens da CPTM?? Nem um terço dos piscinões prometidos, e necessários, foram construídos pelo governo. Nesse ritmo, decorreriam dez anos, sem mais lixo jogado no Tietê, para solucionar o problema. O fundo do rio está cheio de lixo, que impede a absorção das águas da chuva sem que ele transborde. As verbas para os projetos contra enchentes foram reduzidas para 2010, mas para as propagandas políticas, não foi perdido nem um centavo. Ah! Voltemos ao Drummond, muito menos famoso do que a Jose, a Surfistinha, a Popozuda, o Bambam, Geisa... “Reconheço alguns defeitos que aponta no meu espírito. Não sou suficientemente brasileiro. Mas, às vezes, me pergunto se vale a pena sê-lo (...) Acho o Brasil infecto. Perdoe o desabafo, que a você, inteligência clara, não causará escândalo. O Brasil não tem atmosfera mental; não tem literatura, não tem arte; tem apenas uns políticos muito vagabundos e razoavelmente imbecis ou velhacos. Entretanto, como não sou melhor nem pior que meus semelhantes, eu me interesso pelo Brasil” (Correspondências completas entre Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade, pp. 56 e 57). Imagine se ele tivesse visto o dinheiro nas meias, nas cuecas, Surfistinha virando filme, o descaso geral. E recentemente o presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Antonio Carlos Rodrigues (PR), defendendo o aumento de salário do Prefeito (para R$ 23.000,00) e seus auxiliares (para perto disso), perguntou: “Quem consegue viver com um salário de R$ 5.000,00, se eu ganhasse isso, não teria nem formado meus filhos”. Será que formou ou comprou a formação? Esse tipo de político desconhece o valor dessa palavra. Essas pessoas fazem o país infecto. Quem ler esse desabafo, pense bem. Não vamos deixar essas pessoas fazerem o que querem, tomemos uma atitude! Nada de Serra, de Kassab, de raio que o parta. A minoria está interessada nos problemas do país e do povo, cabe a nós identificá-la e divulgá-la. Chega de Big Brother, de Fazenda, de Solitários. Até quando vamos ficar vivendo na marginalidade do mundo? Essas cenas ficam registradas em nossa memória e criam um impacto altamente destrutivo no nosso cérebro. Vamos nos prover de atitudes saudáveis, de poesia, de cidadania. Não há como apagar registros do passado, mas devemos reeditá-los. Nisso Hollywood acertou. O filme Avatar é um chute, muito bem dado, no nosso saco.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ecos da Alma (Lançamento)


No próximo dia 20 de fevereiro, às 15:00 horas, será lançada na biblioteca Alceu Amoroso Lima, em Pinheiros, São Paulo, a antologia de poemas, Ecos da Alma, organizada pela Prof. Doutora de Teoria Literária e Comparada da USP, Guaraciaba Micheletti.

Participo do livro com dois poemas, Nossas palavras e Vozes da poesia, ambos feitos em momentos muito especiais da minha vida, frutos de sentimentos muito fortes, o primeiro no Brasil e o segundo enquanto estive em Évora, Portugal, e em Roma, na Itália, e me encantei com a presença constante (não física) dos escritores e poetas portugueses e mundiais.

No dia do lançamento, a editora promove descontos muito especiais, grande oportunidade para adquirir a obra, além de se respirar um ambiente cheio de cultura, estórias, poesia.

Com esse projeto, inicio o ano de bem com a vida (literatura), e comigo mesmo, procurando aperfeicoar-me naquilo a que venho me propondo, sempre disposto a aprender e corrigir minhas imperfeições, não com o intuito de eliminar os erros, mas de tornar-me cada vez mais ser humano.

Florbela Espanca, referência em um dos meus poemas

Sinopse do livro: Quando buscamos entender o ser humano, deparamo-nos com o desconhecido. Então nutrimos sentimentos intrigantes que nos corroem intimamente a ponto de ouvirmos sons até então despercebidos e que nos fazem enxergar a verdadeira essência da vida. Assim, as palavras ao outro se tornam mais singelas e as páginas ganham traços sutis, como os feitos pelos poetas deste livro. Pare um minuto e ouça os ecos da alma...

À VENDA NA LIVRARIA CULTURA (inclusive pela internet).

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Penha de França


Talvez o bairro da cidade que melhor figure um tempo de infância, portanto, um tempo para o qual estou sempre recorrendo em minhas lembranças, seja a Penha. Importante bairro tradicional e histórico, por meio dele, aprendi a me identificar com a zona leste de São Paulo, multifacetada, como toda a metrópole. Rua Carlos Meira, local em que passei saudosos momentos, bons e ruins, e que hoje posso ver até com alguma graça, distante do impacto físico ou psicológico que o tempo tratou de curar.
É certo que o mundo se transformou por demais na última década; inevitável passarmos pelos mesmos lugares e perdermos a imediata identificação. Ruas estão diferentes, por vezes, sérias demais, solitárias, tristes. Já não reconhecem os rostos que nelas passam, nem mesmo os que nelas residem, afinal, eles também mudaram, como as ruas. Por onde andam a Andréa, a Michele, o Alan, o Érick? Não andam mais pela Carlos Meira. Não existe a locadora, que fechou mesmo antes da pirataria. O veterinário, seu Colombo, a lanchonete do Flávio, a cabelereira, dona Cristina. Os buracos das calçadas não são os mesmos! Não foram naquelas recentes crateras em que eu e meu primo caíamos quando nos arriscávamos sobre uma carrinho de rolemã pela acintuosa ladeira que marca a rua de uma ponta a outra, da Mário de Castro até a Avenida Penha de França.
Ir a pé para o Colégio São Vicente, andar pelas ruas e vielas do bairro, comprar guloseimas nas Lojas Brasileiras, ir à quermese no Largo do Rosário, entrar no shopping inaugurado há menos de uma semana, encontrar amigos no Grupo Sérgio, aliás, decidir entre os três que havia no bairro, cruzar o bairro por completo em poucas horas do dia, caminhando mesmo. Massahara? Ainda não tinha idade suficiente para frequentar a extinta discoteca. Mais de vinte anos separam esses dias do tempo presente, outros vinte deveriam ser vividos distantes da Carlos Meira, para se esquecer marcas tão profundas que foram deixadas em minhas memórias.
Texto elaborado durante as atividades do Projeto Escrevivendo, no Museu da Língua Portuguesa (18 a 22 de janeiro de 2009).

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Nicolau Maquiavel: anjo ou demônio?

Depois de Dante, Boccaccio e Petrarca (embora este haja nascido fora da cidade), Florença viu crescer um dos grandes pensadores e literatos do mundo ocidental: Niccolò Machiavelli, que ao lado de Ludovico Ariosto e Tasso, representa o grande nome do século XVI na Itália. Injustiçado, mal lido e muito mal traduzido e interpretado, o termo maquiavélico incorporou as piores qualidades que um ser humano poderia vir a ter. Há alguns anos, na TV Cultura, um filósofo falando sobre Maquiavel, traduziu a passagem "più conveniente andare dietro alla verità efetualle delle cose", presente em "O Príncipe" como "mais conveniente conformar-me com a verdade efetiva das coisas", quando o contexto exigia "mais conveniente buscar a verdade efetiva das coisas". Maquiavel falava, neste momento, da dinamicidade dos fatos, como se pode ver, a tradução acabou com o pensamento do escritor italiano. Imputaram a Maquival a frase "Os fins justificam os meios", e como me dói na alma (e nos ouvidos), quando alguém faz essa citação, inventada por traduções mal realizadas e interpretações, como disse, descontextualizadas, já que não há essa passagem em nenhuma obra de Maquiavel, nem escrita, nem expressa como pensamento. Há poucos dias, na TV Aberta, um tal de Dr. Norberto Keppe, brasileiro, estudioso da psicosociopatologia, que diz conhecer marcas da sanidade e insanidade no indivíduo e o resultado disso no corpo social, por meio da psicanálise, metafísica e filosofia, disse que Maquiavel era egoísta, só pensava em si mesmo; tratava-se de uma psicopatia, e que acabou ficando louco. Quanta bobagem. Até pensei que nos próximos programas poderia se dizer que Nietzche foi a origem do nazismo, que Dostoiévski tinha epilepsia porque se julgava responsável pela morte do pai, que Bakhtin ouvia vozes, daí seus pensamentos sobre Dialogismo e Polifonia, que Graciliano Ramos odiava os homens, e tudo isso explicaria o que escreveram, quando a crítica literária, há muito, já discerniu autor, narrador e personagens (em todas suas singularidades e multiplicidades). Não se pode fazer uma leitura de Maquiavel tão simplista, recheada pelo senso comum, sem considerar, no mínimo, a História, a Filosofia, a Política e, acima de tudo, a Literatura, porque Maquiavel utilizava recursos estilísticos fecundos em suas escritas. É no conjunto, se possível, com a leitura em italiano, que se pode aproximar do que representou Maquiavel para seu tempo e para o mundo. Há muitos argumentos para se questionar o que foi dito a respeito de Maquiavel, contudo, basta dizer que ele foi o primeiro a pensar o conceito de Estado como conhecemos hoje e a dizer "os italianos", já que pensava na nação, e não em Florença, três séculos antes da unificação do país, embora fosse a Itália uma colcha de retalhos servindo a interesses externos. Para Maquiavel, os fins poderiam produzir os meios, jamais justificá-los. A grande confusão que se faz ainda quando se pretende interpreta-lo é julgar que ele tenha feito tratado de moral, não o fez: falava de fatos. Foi grande na prosa e no teatro. Maquiavel sofreu pelas mãos da tirania, da ânsia pelo poder, assim como Dante Alighieri, o maior poeta italiano, sofreu por questões políticas, sendo exilado perpetuamente da cidade em que nasceu e que amava. Diferente de outros de sua época, Maquiavel não teve direito a um epitáfio, sendo a injustiça corrigida somente no século XVIII, por um inglês, passando a constar em seu túmulo: Tanto nomini, nullum par elogium (Para tão grande nome, nenhum elogio é suficiente).

terça-feira, 10 de novembro de 2009

As ciências humanas...

Com as novas tecnologias, cada vez mais as pessoas se afastam do contato com o outro e o mundo vai ganhando novas formas de convívio. Nesse aspecto, as ciências humanas foram perdendo o lugar que deveriam ocupar, não somente nas áreas de conhecimento, mas também na vida cotidiana. É claro que quando se luta pela sobrevivência, nossa satisfação passa a ser somente imediata, perdemos a capacidade (e o interesse) da contemplação. É o próprio Todorov que nos alerta para essas transformações, já que até mesmo na França, país que depois da formação dos Estados nacionais tornou-se o centro cultural do planeta, os cursos de humanas vão perdendo cada vez mais espaço para outras áreas, afetas a essa "modernização". Pouco se fala, se diz, se reflete sobre Filosofia, Literatura, Sociologia, Antropologia, História... Cada vez mais esses grupos se restringem, a meu ver, grande contradição com o que se pode obter dessas ciências. Mas o resultado disso tudo está marcado em nosso dia-a-dia. Não há tempo para ler, para falar, para estar com as pessoas. Vivemos numa corrida frenética para se chegar a lugar algum. E se não estivermos atentos a isso, acabamos caindo na inevitabilidade das consequências. Agregar valores, conhecer e somar culturas, interagir, ensinar e aprender... o que somos se não seres em constante evolução? A maior conquista é estar sempre descobrindo que muito pouco se sabe sobre aquilo que achávamos muito saber, aí estaremos sempre receptivos a novos conhecimentos. E essa é a maior resposta que as ciências humanas podem nos oferecer. Aliás, fiquei extremamente contente em saber que a Unicamp tem um curso pioneiro de Estudos Literários, em quatro anos integrais, em que o aluno, ao concluí-lo, está apto a exercer a docência universitária e a crítica literária, além de trabalhos na área cultural. Esse curso demonstra que ainda há instituições no país comprometidas com o que há de melhor em formação humana e acadêmica no mundo, assim como seus alunos, e não apenas instituições preocupadas com arrecadações exorbitantes, com as roupas que seus discentes estão vestindo, e estudantes que perdem tempo precioso com futilidades, dentro do próprio ambiente universitário, contaminados por visões preconceituosas e um despreparo intelectual motivado pela inconsciência do que fazem e querem em se tratando de suas formações.