quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Somos americanos, do hemisfério sul

Há algumas horas, estive no motoclube Águia Negra, e ouvi novamente uma canção de que gosto muito, chamada "Milho aos Pombos", do cantor Zé Geraldo, na voz do incrível Hélio França (sorte de quem já teve o prazer de ouvi-lo). Revisando uma apostila de História, deparei-me com a seguinte citação de Geoffrey Blainey em seu best-seller "Uma breve história do mundo": a história do mundo poderia ser escrita como uma sequência de guerras entre clãs, tribos, nações e impérios, e penso, agora eu, como somos estúpidos. Recentemente foram lançados os diários de Claretta Petacci, acerca do metrossexual (atitude e termo absurdos) ditador italiano Benito Mussolini, egocentrismo incentivado por milhares de mulheres enlouquecidas pela duvidosa beleza do fascista, prova de como os valores humanos são constestáveis. Terminou sendo arrastado, fuzilado e pendurado em praça pública, junto da amante e de outros fascistas.

Um mundo antes dividido ideologicamente em leste e oeste, ocidente e oriente, agora se divide em norte e sul, parte superior e parte inferior, posição que os homens parecem valorizar em suas práticas cotidianas. Não há nada mais podre e nojento do que alguém que olha outro ser humano de cima para baixo, na maior parte das vezes, em função do dinheiro. Ainda por esses dias, ouvi na CBN, uma entrevista em que se comentava o problema dos executivos em relação à classe C, que ascendia ao mercado de consumo, já que esses empresários não conseguiam estabelecer um diálogo com quem não era da classe A e B, por preconceito ou falta de afinidade. Haja sonrisal!!!

Então lá estava eu, ouvindo Zé Geraldo, cantor mineiro, nascido em 1944, que tematiza em suas músicas o comportamento dos homens e a barbárie das ações humanas, apesar de ainda restar no amor singelo uma fonte de água pura, algum oxigênio. Fiel a seu estilo, o cantor e compositor amargou na década de 80 a indiferença das grandes gravadoras, interessadas no boom sertanejo, do qual se negou a fazer parte, ou a ser parte, época que abriu o cenário ao "pagode" nacional. Enquanto tudo isso acontecia, que ensejou na qualidade musical que temos (que ouvir) hoje, Zé Geraldo continuava jogando seus milhos aos pombos. Três décadas depois, aqui estou eu, um pombo, alimentando-me do milho jogado pelos bons artistas que este país muitas vezes se esquece de reconhecer. Viva Meiga Senhorita, Galho Seco, Como Diria Dylan. Viva Zé Geraldo, estradeiro que não precisa da nossa mídia para fazer sua arte.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Pare o mundo que eu quero descer!!!

O Ministério do Turismo é um dos mais disputados, já que com os jogos internacionais de 2014 e 2016, transitará por ele quantias estratosféricas. Pedro Novais, o ministro convocado por Dilma, assume já com uma denúnica de desvio de dinheiro público, R$ 2.000,00, para pagar a conta de uma festinha para casais em um motel no Maranhão. O jogo pelo poder e a disputa por cargos já cheira muito mal. O mundo está cada vez pior, as pessoas estão se devorando de todas as formas, há poucas válvulas de escape a nossa disposição e temos que estar muito atentos a elas, pois os interesses vis estão enchendo nossos corações e mentes de gás carbônico. Não que o mundo um dia tenha sido só cores. Os interesses de poucos sempre movimentaram essa máquina, porém, há duas ou três décadas, não posso falar de dois ou três séculos, as coisas pareciam ser mais suportáveis.

Ontem, segunda-feira (10), assisti a três excelentes programas na TV Cultura, Roda Viva, que entrevistou o antropólogo Roberto da Mata, Cultura Documentário, sobre a vida de Charles Bukowski e A Invenção do Contemporâneo. Qual terá sido a audiência desses programas? Qual será a audiência de Entrelinhas, Vitrine, Provocações, este último, para mim, o melhor programa da televisão brasileira. Será que atingiram o Ibope de Superpop e o desfile de biquínis? Nosso tão valorizado real não é nada perto da força cambial de uma bunda. Vai começar mais um Big Brother e novamente veremos um bom jornalista se bestializar em frente às cameras. As pessoas se assustam, reclamam, matam seus filhos com as armas que eles próprios criaram, como um EUA e Afeganistão. Karl Marx dizia que o capitalismo encerra em si os germes de sua própria destruição. Estava absolutamente correto, mas nos escondeu que essa destruição seria lenta e extremamente dolorosa.

José Saramago criticava a religião e a política, dizendo que vivemos em uma falsa democracia, uma democracia mantida e voltada para poucos. Basta olhar as escolas, os hospitais, o lazer, a moradia, a condição de vida de 98 % da população. Não dá mais para acreditarmos e nos conduzirmos como se vivêssemos no Planeta Xuxa. Ontem assisti ao documetário sobre Bukowski, o último escritor norteamericano maldito, que tematizou sua vida e sua obra com prostitutas, álcool, sexo, pessoas miseráveis, experiências escatológicas (excrementos). Mesmo reconhecido, famoso e consagrado, o alemão que viveu desde cedo no submundo de Los Angeles, não exigiu para si o estrelismo, a fama, os holofotes. Conquistou apenas o direito de viver como acreditava, entre os mesmos vagabundos. Tendo escrito por vários anos por U$ 100,00 ao mês (R$ 169,00), com apenas uma refeição diária (uma barra de cereal antes de dormir), construiu uma obra respeitada por muitos acadêmicos, vertida para o cinema, e claro, pelas pessoas comuns e incomuns, como ele, publicando livros como Pulp, Hollywood, Notas de um velho safado, Ereções, Ejaculações e Exibicionismos e Crônica de um amor louco, além de várias poesias inéditas no Brasil. Bukowski nos mostrou um pouco da realidade de um mundo que lutamos para não enxergar, mas que é o nosso mundo.

Há muita hipocrisia na sociedade: perdemos a saúde, não mais com o álcool ou com as noites em claro, mas com a Claro, a televisão, com os móveis não entregues, quando entregues, não montados, com as enchentes, com os ônibus lotados, com o trânsito que rouba 20 % do nosso dia. Perdemos a saúde com o cartão de crédito, com os bancos, as músicas que entram pelos nossos ouvidos, sem que a queiramos ouvi-la, com a obrigação de votar para novamente sermos enganados, com a suspensão quebrada pelas ruas esburacadas, do carro que achamos que é nosso, mas que nos três primeiros meses do ano temos que pagar a parcela "do" Estado e a taxa "da" Prefeitura (aquela mesma que foi usada na conta do motel). Nosso suor não é nosso, pois grande parte dele pinga nos cofres públicos (e deles para os privados). Achamos que somos superiores aos animais e aos outros seres humanos, e isso nos traz felicidade. Vivemos em um país de uma legislação hipócrita, em um Mundo feudal civilizado e com a certeza de que evolução não é sinônimo de melhora.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O Segredo da Crisálda - lançamento

No dia 29 de janeiro deste ano, na Rua Henrique Schaumann, 777, será lançado o livro O Segredo da Crisálida, no qual participo com o poema Écrivaillerie. A opção pelo título em francês surgiu por dois fatores, um empírico, outro expressivo. Empírico porque na época em que o escrevi, há um ano, estava fazendo um curso intensivo de francês, expressivo, porque o significado desta palavra, que deve ser de alguma forma buscado pelo leitor, revela, ou ao menos contribui, para a formação do significado do próprio poema, em sua temática. Ao falar de amor, compõe-se a fala sobre o fazer poético, tema principal deste poema.

Esta é a minha terceira paricipação em antologias, duas de poemas e uma de contos, e fiquei muito feliz ao receber o miolo da obra. Na apresentação, Andréa Catrópa, organizadora da obra, doutoranda em teoria literária e coordenadora do programa Ondas Literárias, escreve que "no caso da temática, predominam textos que recorrem a tópicos tradicionais da lírica, como o amor, o tempo, a indagação metafísica e os questionamentos sobre o próprio fazer poético. Mas surgem, também com força, referências a elementos da fantasia e do sobrenatural, recorrendo a um encadeamento narrativo que permite a criação de mundos paralelos, não referenciais às situações cotidianas."

Nesta antologia, predominam os autores ligados às áreas das Letras, de graduandos a doutores, mas também participam profissionais de outras áreas do conhecimento, como historiadores, roteiristas, bibliotecários, geógrafos e jornalistas, enriquecendo o conhecimento de mundo que permeia os textos.

Em Ecos da Alma, publiquei dois poemas, um que fiz imediatamente após receber um e-mail de alguém com quem convivi e por quem tive um sentimento muito intenso e bonito, mensagem que trazia um pouco da temática nela expressa, e outro que escrevi em Portugal, sob a estátua da poetisa Florbela Espanca, na praça de Évora. Dois momentos inspiradores. São pequenos recortes de experiências que vou construindo lentamente, e que na gaveta, ou melhor, pelas pastas do Windows, vão constituindo uma antologia própria.

Nossas palavras


Diga-me tuas palavras,

Aquelas que gosto de ouvir,

Que ressoam pela tua língua no meu corpo.


Direi também as minhas,

Coladas com os teus sons,

Quando nossas línguas se tocarem entre si.


Assim se dirão as melhores frases,

As mais intensas e poéticas já construídas,

Cheias de tons, estilo, imagens e símbolos.


Não queiram estudar a nossa sintaxe,

Somente nós a entendemos, só nós sabemos explicá-la.

Faz-me calar, aliás, faz-me dizer apenas as nossas palavras.


Vozes da poesia


Posso sentir as palavras que o vento me traz,

Mais do que isso, posso vê-las.

São cantadas por Mariana e Florbela,

Correm os vastos campos do Alentejo,

Alimentando os ares de vinho e cores.


Homens passam, carros passam, os dias passam,

Contudo, cá e lá estão os versos de amor,

Os versos de dor, os versos de alma.

E a condição de ser humano se renova

Termina o poema, permanece a poesia.


Lê-lo, pois, é permitir extasiar-se,

Destruir as aflições pertencentes ao cotidiano,

Por poucos minutos, em que enxergamos

Com os olhos do poeta, com a música da poesia.

Passamos a ouvi-la pela eternidade dos anos.


A matéria palavra


As palavras pesam, em silêncio,

As pessoas não,

Pois são imagens retidas no tempo,

As palavras, no coração.


No coração se sente a dor maior,

Do que o tempo não matou,

As palavras, vivas no pensamento,

São eternas em seu pesar.


Não me livro das palavras,

No meu livro, não são sons, são matérias.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O caso Cesare Battisti

Para escrever sobre o complexo caso Cesare Battisti, reli com atenção um texto da graduação, chamado "Il profilo di un secolo", (podemos traduzir como "O perfil de um século") de Giovanni De Luna, a fim de entender um pouco mais as circunstâncias políticas que atravessou e, podemos dizer, atravessa a Itália ainda hoje. O país viveu uma grande aceleração industrial na virada para o século XX, raízes da participação operária no cenário econômico italiano: energia hidroelétrica, indústria mecânica, construção de ferrovias, Banco da Itália, serviços públicos e intervenção do Estado. Desenvolve-se a questão meridional: a separação econômica entre o Sul e o Norte da Itália. Inicia-se um processo de emigração nunca mais visto na história do país, cujo ápice deu-se em 1907. O sistema de fábricas modifica o cotidiano do país, expande-se a atividade operária, em detrimento às atividades do campo. Forma-se a burguesia, em meio à urbanização, que ao contrário dos operários, cujos salários eram empregados na alimentação (sobrevivência), passam a acumular capital. Os efeitos econômicos atingiram também o sistema político. Consciência dos direitos civis, formação do Partido Socialista, política fortemente autoritária (idade crispiana), crescimento da esquerda, atividade sindical, política de expansão territorial na África: povoamento (por que será que há tanta miséria hoje naquele continente?...), BENITO MUSSOLINI (ex-socialista): guerra e direcionamento da opinião pública. "A primeira grande guerra tinha estabelecido um nexo estreitíssimo entre a violência e os comportamentos coletivos". Depois de muita violência, Mussolini "marcha sobre Roma" para conquistar o poder, sem a necessidade de combate, e instaura o Fascismo e o Estado totalitário, poder pessoal de Mussolini e o cancelamento das liberdades: "se o fascismo foi uma associação para delinquir, eu fui o chefe daquela associação delinquente". A partir daí, toda violência física (prisões e assassinatos, como a longa detenção do líder comunista Antonio Gramsci, morto na prisão), social e política que já conhecemos, com o agravante da tentativa de transformar toda a sociedade em facistas. Foi instaurada a política da segmentação: operário deve estar com operários, mulher com mulheres, estudante om estudantes, sem a possibilidade de interação. Fundou-se, pasmem, o Instituto Facista de Cultura. A economia entra em crise. Sob a dependência econômica alemã e com o exército enfraquecido, a Itália declara guerra à França e à Grã-Bretanha, em 1940. Sem condições de sustentar a guerra, Mussolini se refugia no Norte (República Social Italiana), dividindo a Itália em duas, sendo dominada pelos americanos na parte sul. Em 28 de Abril de 1945, Mussolini é capturado e fuzilado. A partir daí, o país luta para se reconstruir, e a Guerra Fria (americanos X soviéticos) gera efeitos na Itália, contrapondo direita e esquerda. Aí se inicia pontualmente a história em que se envolve Cesare Battisti, e como se pode ver, é a própria história italiana, desde a unificação em 1860.

A sociedade italiana passa por profundas transformações sociais, os operários protagonizam o boom ecônomico (1959-62), mas a recessão explode no país. Em 1968-69, período conhecido como biennio rosso, as lutas operárias e estudantis agitam as universidades, as fábricas e as praças italianas. Da queda do fascismo a 1974, sucederam-se na Itália trinta e seis governos. De 1970 a 1980, período conhecido como anos de chumbo, ocorreram as manifestações mais extremas de um fenômeno terrorista em uma fase de aguda crise social e de instabilidade política, tanto na direita (estratágia da tensão e tentativa do retorno de um regime autoritário) quanto na esquerda (comunistas revolucionários), caracterizada pelo uso da violência. Houve muitos mortos e feridos, inclusive de inocentes. Os jornalistas Walter Tobagi, do Corrieri della Sera e Carlo Casalegno, do Stampa, foram assassinados. A década seguinte seria marcada pela nova ordem pública, da criminalidade organizada, a Máfia, la Cosa Nostra. Na década de 90, a reorganização política ascendeu o nome do atual primeiro ministro, Silvio Berlusconi.

Dentro desse contexto histórico, conturbado e complexo, que Cesare Battisti atuou na esquerda terrorista durante os anos de chumbo. Ele é acusado de quatro assassinatos, dos quais nega a autoria, sendo julgado pela delação premiada de seus supostos comparsas. O governo Lula negou o pedido de extradição para que Cesare cumpra prisão perpétua na Itália, o que gerou um clima de animosidade entre os dois países, inclusive com a ameaça da suspensão da relação diplomática e bloqueio de acordos entre essas nações. Os jornais italianos no final de ano e primeiros dias de janeiro criticaram veementemente a atitude de Lula, reportando-se a uma decisão inexplicável e inaceitável. O presidente italiano escreverá uma carta à Dilma, pedindo que reveja o posicionamento firmado. O fato é que o Brasil não quebrou o tratado com a Itália, já que sob a evidência de crime político poderia negar extradições. Por outro lado, pesa nas costas do PT ações violentas contra instituições e pessoas, o que poderia respaldar a permanência do italiano em nosso país. Na Itália, a imprensa de esquerda apoia a extradição, mas não é uma esquerda confiável, já que há muitos interesses além de posicionamentos políticos ou ideológicos., inclusive nos anos de chumbo. Berlusconi, chefe de governo, racista, xenófobo e fascista, recuou. Disse que o "crime" parece político e que "o Brasil é um país ao qual somos ligados por uma antiga e sólida amizade", que esse fato não influenciará essa relação. Para mim, Lula agiu corretamente. Ainda é muito cedo para que se tenha um entendimento preciso sobre a verdadeira história de Battisti. Caberá aos ministros do Supremo Tribunal Federal reavaliar o caso e decidir a permanência ou não de Cesare Battisti em nosso país, afinal, ele ainda está preso, o que, de certa forma, não contraria a decisão proferida pela justiça italiana.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Mande notícias do mundo de lá...

Walter Benjamim, em seu texto "O narrador", coloca-nos a frente de duas formas de experiências próprias dos narradores. Uma delas, é a do camponês, que nunca saiu de sua terra, assim, alimenta-se de histórias provindas de seu conhecimento sobre a tradição. A outra é aquela do viajante, aquele que "vem de longe". Um dia, saindo de Irará, na Bahia, meu pai deixou de ser camponês e foi se aventurar como viajante, traçando um destino de milhares de brasileiros. Em cinco décadas construiu sua vida e a de seus filhos. Não escolheu ser viajante, mas o foi. Agora, por escolha própria, retorna para o mundo do camponês, para viver e lutar em uma realidade que talvez esteja muito diferente daquele ilustrada para nós, durante as maravilhosas estórias dos lugares e das pessoas que reencontrará. Partiu para sua cidade e deixou os cômodos enormes, um silêncio incômodo, uma rotina ainda a se descobrir.
Dizem, alguns, que o sentimento da saudade, a tristeza causada por ela, é fruto do nosso egoísmo, já que é tão somente a impossibilidade de termos aquilo que a pessoa poderia nos oferecer. Pode ser que seja verdade, ou não. Quando penso nisso, cheio de saudade, sou incapaz de pensar sobre essa afirmação, confirmá-la ou negá-la, pois não tenho uma distância segura do próprio fato para poder escrever sobre ele.
Com a merecida homenagem, sabendo que "a vida é pra valer", como cantou Vinícius, faço deste o último texto do ano, dedicando-o juntamente com a música abaixo, a uma pessoa que sempre será, ainda que a dois mil quilômetros de distância, um exemplo de vida para mim, assim como também continua sendo a minha mãe. Que Deus, quem você insistentemente buscou me apresentar, ilumine sua estrada e que o ajude a vencer as lutas diárias, aliviando do seu peito o mesmo sentimento de saudade que deve estar levando junto a ti, e que possa usufruir dos momentos de felicidade e paz. Em poucas horas da partida, já foi capaz de me fazer recordar profundamente desse sentimento tão estranho e desorientador, que é a saudade, "nossa alma dizendo para onde ela quer voltar", como disse Rubem Alves.

Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo

Esses seus cabelos brancos, bonitos, esse olhar cansado, profundo
Me dizendo coisas, num grito, me ensinando tanto do mundo...
E esses passos lentos, de agora, caminhando sempre comigo,
Já correram tanto na vida,
Meu querido, meu velho, meu amigo
Sua vida cheia de histórias e essas rugas marcadas pelo tempo,
Lembranças de antigas vitórias ou lágrimas choradas, ao vento...
Sua voz macia me acalma e me diz muito mais do que eu digo
Me calando fundo na alma
Meu querido, meu velho, meu amigo
Seu passado vive presente nas experiências
Contidas nesse coração, consciente da beleza das coisas da vida.
Seu sorriso franco me anima, seu conselho certo me ensina,
Beijo suas mãos e lhe digo
Meu querido, meu velho, meu amigo
Eu já lhe falei de tudo,
Mas tudo isso é pouco
Diante do que sinto...
Olhando seus cabelos, tão bonitos,
Beijo suas mãos e digo
Meu querido, meu velho, meu amigo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Música de qualidade

Roberto Frejat

Roberto Frejat nasceu em 1962, no Rio de Janeiro. Aos 19 anos, iniciou a estória de uma banda que mais tarde, com a entrada de Cazuza, formaria o Barão Vermelho, um dos principais conjuntos de rock dos anos 80, ao lado da Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Biquini Cavadão, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii e outros, em uma das décadas em que a música brasileira produziu o que há de melhor em sua história, desde o início do século XX, com as bases do samba (Noel Rosa), o baião de Luis Gonzaga, a Era do Rádio, a Bossa Nova, a Tropicália e os grandes Festivais, ritmos que influenciaram o guitarrista, compositor e cantor Frejat, além de nomes internacionais como Beatles, Stones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Bob Dylan e Santana.

Após a saída de Cazuza da banda, em 1985, Frejat inicia sua carreira de intérprete, sendo ainda hoje um dos maiores cantores da nossa MPB e emplacando sucessos como O Poeta Está Vivo, Puro Êxtase, Por Você, Segredos, Amor para Recomeçar (veja o vídeo).

Dave Matthews Band

Dave Matthews nasceu em 1961, na África do Sul, indo morar em Virgínia, nos Estados Unidos, onde liderou a formação da Dave Mathews Band, influenciada por nomes como Led Zeppelin e Deep Purple, surgindo um grupo musical singular pela potente e versátil voz de Dave e pela qualidade musical de toda a banda, que também utliza instrumentos clássicos em suas apresentações. Basta dizer que Leroi Moore é um consagrado músico nos mais inimagináveis instrumentos de sopro, compondo o Dave Matthews Band, juntamente com Boyd Tinsley (violinista), Carter Beauford (baterista), Stefan Lessard (baixista), Peter Griesar (tecladista) e o cantor e guitarrista Dave Mathews.

O primeiro show, em 1991, foi para um público de 200 pessoas. A partir daí, com a participação direta dos fãs que iam se formando, a banda cresceu e se consagrou no cenário internacional. A música Crash ficou em segundo lugar na Billboard (1996) e Too Much (veja o vídeo) foi a responsável pela consquista do Grammy Award.

Órfão desde jovem, com a irmã assassinada na África, pelo marido, Dave trabalhava como barman antes de se destacar no mundo da música. Sempre determinados na luta contra o racismo, Dave e sua banda representam o que há de melhor na música americana das últimas duas décadas. Clique e ouça outra música da banda!

Site oficial: http://www.davematthewsband.com

domingo, 28 de novembro de 2010

Fim do tráfico no Rio de Janeiro?

Não sei a resposta para essa pergunta. A polícia invade o Morro do Alemão, dizem as manchetes. Há muito se confunde quem é a polícia, quem é o bandido. A palavra "invade" é bem e mal utilizada. Bem utilizada, porque revela a situação caótica do Estado do Rio, pois demonstra que esta área tem muitos proprietários: os traficantes. Mal utilizada porque a polícia não invade uma área que é pública, onde é de ofício que ela atue.
Hoje ouvi um "jornalista" dizer: "Por que quando perguntamos o número de feridos, não nos responde? Será que estão sonegando a informação?" Quanta hipocrisia. Querem tirar da boca de qualquer policial uma resposta que deve ser passada por aquele que tem essa incumbência. Imagine se cada policial operacional for responder a essa questão: o mesmo jornalista diria que a polícia não tem controle do que está ocorrendo, que as informações são desencontradas. No judiciário, há juízes que discutem indulto de Natal também para traficantes. Alguns familiares criticam a ação, já que seus parentes, que são inocentes, estão sendo submetidos à rigorosa identificação.
Chega de acreditar que podemos viver como se estivéssemos numa sociedade perfeita, na Islândia ou na Noruega. Na guerra morrem pessoas inocentes, e o que acontece no Rio de Janeiro, o que é? A polícia está sempre em desvantagem, não sabe quem é o bandido, quem é o cidadão, enquanto os policiais estão visivelmente identificados. Além disso, luta ao lado da covardia dos bandidos, que utilizam a população como escudo. A questão não é quantas pessoas morrerão nessa ação. A questão é quantas pessoas morreram, morrem e continuarão morrendo na mão desses monstros, desses bandidos, do tráfico de drogas.
Os policiais perderam suas férias, suas licenças, seus convívios familiares. Estão expostos, com o intuito de devolver a dignidade de pessoas que nem conhecem, que muitas vezes os criticam. Os policiais estão oferecendo a própria vida para corrigir problemas que se agigantaram pela deficiência educacional, política, social e econômica. Lá estão, ao julgo de todos, para serem heróis ou bandidos. A hora é agora. Que a população, o judiciário, o ministério público e a imprensa façam sua parte. Com certeza, aqueles homens de farda que diuturnamente estão vivendo naquela horrenda realidade, longe dos grandes banquetes, das confortáveis poltronas e do carinho dos familiares estão fazendo a sua. Parabéns a todos que estão devolvendo o Rio de Janeiro à população, demonstrando que com um pouco de vontade política os policiais sabem como agir.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

José e Pilar: o filme

José e Pilar é um filme dirigido por Miguel Gonçalves Mendes, um documentário dramático que mostra a rotina do casal José Saramago, escritor português, e José Pilar Del Rio, jornalista espanhola, com quem se casou em 1988, dez anos antes de receber o prêmio Nobel de Literatura. Mais do que o relato dos últimos anos de vida do escritor português, falecido em junho deste ano, o filme nos mostra traços culturais de Portugal, da relação de Saramago com a sua pátria, de seu posicionamento polêmico sobre religião e sobre a vida, sua relação com a literatura e, sobretudo, uma grande história de amor, perceptível na troca de olhares e alimentada diariamente por simples gestos.


Talvez seja esse o ponto que mais nos encha os olhos: um amor que não se mitiga com a diferença de idade, de ideias, de nacionalidade, com os compromissos quase que sobrepostos de um Nobel de Literatura. Causa-nos comoção a possibilidade que a câmera nos dá de nos aproximarmos tanto de um ícone da literatura mundial, poder estar do outro lado, às costas de Saramago, e sentir o seu esforço físico e mental para atender as pessoas que o admiravam, ainda que isso o debilitasse, resultando em meses de internação. José Saramago iniciou sua escrita já com sessenta anos, descendendo de uma família pobre, optando por morar em Lanzarote, desde 1993, o que, somados ao seu posicionamento cético em relação a Deus, desenvolveu o afastamento de boa parte do povo português em relação ao escritor. Portugal, culturalmente, não poderia aceitar que o seu prêmio Nobel de Literatura fosse pobre, escritor já “velho”, que não descendia da elite cultural e social portuguesa, que se unisse à Espanha (Pilar) e lá fosse viver, país com quem os lusitanos travam uma luta ibérica secular, e que ainda fosse comunista e ateu.


Em meio a esse Saramago firme em suas convicções, consciente de sua função como escritor, é que surge um homem capaz de compreender e amar uma mulher de uma forma que nós ainda não sabemos fazê-lo, assim como nos aparece uma mulher capaz de receber esse amor, de vivê-lo e retribuí-lo, na mesma proporção. Enfim, há muitos motivos para se ver José e Pilar, uma verdadeira obra prima, à altura de um grande escritor que nos é revelado também como um grande homem, mesmo que discordemos, ou não, de qualquer posicionamento que venha a ter. O escritor resume o que, a certa altura, ainda queria da vida: mais tempo, para escrever e para estar ao lado de sua esposa e, profeticamente, para nós, não para ele, ao final do filme, José Saramago, dois anos antes de sua morte, diz a Pilar: “nos encontraremos em outro sítio”. José e Pilar não é mais uma estória de amor de Holywood, é uma estória de amor real, gravada durante três anos, e nós, ainda que na impossibilidade de vivê-la, renascemos como ser humano quando, sentados em alguma poltrona (no meu caso, acompanhado de uma pessoa muito especial para mim), entramos em contato com ela.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

VI Semana Venezia Cinema

Na próxima semana, de 22 a 28 de novembro, o Consulado Geral da Itália em São Paulo e o Istituto Italiano di Cultura promoverão a VI Semana Vezezia de Cinema, cujos filmes serão exibidos no Cine Livraria Cultura e Cinemateca Brasileira. A semana se inicia às 18:00 horas, com um coquetel, sendo que os filmes terão início às 19:00 horas, no caso do Cine Livraria Cultura. Segue a programação que ocorrerá na Avenida Paulista, 2073:
Dia 22: La Passione
Dia 23: La pecora nera
Dia 24: Malavoglia
Dia 25: Profumo di donna
Dia 26: Notizie degli scavi
Os ingressos devem ser retirados com meia hora de antecedência.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Adeus ano velho, feliz ano ano

Feliz ano novo é título de um livro de contos, escrito por Rubem Fonseca, censurado em 1975. Autor que tematiza a vida urbana, solitária e violenta, Fonseca é um dos maiores contistas nacionais. Mas não é sobre literatura que escreverei agora. Aproximando-se o Natal, deixo de lado a minha descrença no simpático velhinho para me antecipar a tantos pedidos que ele receberá e também fazer alguns.

Caro velhinho, sei que sou crescido para importuná-lo, e talvez a data também seja inoportuna, entretanto, gostaria de listar dez singelos pedidos que espero concretizá-los no próximo ano, agradecendo de antemão algumas alegrias que tive, como terminar a minha pós (e iniciar outra), viajar para a Argentina (e me interessar pelo espanhol), conhecer pessoas maravilhosas e ter oportunidade de criar um material de língua, código e linguagens para o cursinho em que estou ministrando aulas, voltar a USP, desenvolver-me profissionalmente, mudar de residência (é sempre bom), ter a família com muita saúde, participar de um programa de televisão, um carro novinho (alegria comedida pela minha alma imaterial). Houve tristezas, claro, o fim de um relacionamento, por exemplo. Agora vamos para o que interessa, já que uma pesquisa revelou que a esmagadora parte de nossos pensamentos se direcionam para o futuro, poucos deles para o presente:
1 - Dê-me organização suficiente para que em meu quarto não fique um livro ou papel fora de lugar;
2 - Dê-me tempo para ouvir com calma os discos da coleção do Chico Buarque que está em curso;
3 - Não permita que um amor me cegue os olhos e a consciência, deixe-me vê-lo com os olhos de Tirésias, não de Édipo;
4 - Aproxime-me de meus familiares e amigos verdadeiros e permita que eu demonstre com atitudes o quanto os amo e lhes quero bem;
5 - Torne possível que eu leia livros não somente por obrigação, dando-me algum tempo para ler aqueles que esperam há anos;
6 - Possibilite-me uma nova viagem, para Bahia, para Goiás, para o Chile, para a Itália ou para a Alemanha, junto da minha prima;
7 - Presenteie-me com muita, mas muita força, para levar à frente, já no próximo ano, a graduação de Filosofia (Metodista) e a pós-graduação em História da Arte (São Judas), os dois últimos cursos superiores que pretendo fazer antes do mestrado em Literatura;
8 - Desenvolva o meu espírito para que eu possa fazer um bom trabalho no Nellpe e concretizar a pesquisa para o mestrado;
9 - Fortaleça meu trabalho, para que eu tenha condição de realizar e concretizar meus desejos para o próximo ano;
10 - Dê-me saúde, vontade e bom humor, às pessoas queridas, ao meu país, ao mundo, para que tenhamos sempre um lugar melhor para se viver.
Assim será um ótimo 2011, obrigado, Papai Noel!

sábado, 13 de novembro de 2010

A música em nossas vidas

Schopenhauer considera a música a arte suprema, linguagem universal que traduz as vontades do homem. O caso de Nietzsche e Wagner é muito conhecido, o que nos faz pensar essa relação da música com o nosso mundo, interior e exterior. Durante muito tempo uma música marcou muito em minha vida, "Todo azul do mar", e realmente era como se o mar invadisse minha alma, tomando por completo meu corpo, meus pensamentos e minhas memórias. Hoje, era para eu não suportar ouvi-la, mas posso escutá-la, ainda bem, sem nenhuma descarga química em meu organismo. Quando a escutei ao vivo, pela voz de Flávio Venturini, há alguns anos, não tinha noção da força dessas águas, embora já estivesse velejando por elas. O barco desviou de sua rota, o mar, por vezes calmo, virou tormenta, suas águas saíram de mim, deixando apenas um tênue gosto de sal. A maré está baixa. Naquela mesma semana, daqueles anos idos, contribuí com algumas gotas lacrimais para as águas daquele oceano. Hoje elas se secaram junto dele.

Algumas vezes escrevi sobre as músicas de Renato Russo, realmente foi um grande poeta, estava à frente de seu tempo. Não que eu fosse fã, ou que seja, mas são inegáveis suas impressões digitais marcadas em nosso mundo. Dos seus textos que aqui gostaria de registrar, vem à minha cabeça a música Giz. Representa um descontrole controlado, "quando quero". O personagem se permite transitar entre inseguranças, já que não é dono de nenhuma certeza (acho, queria, mas) e isso não o machuca, e o seu gostar, ponto alto da música, é verdadeiro, porque não há outras pessoas, o outro alguém é conhecido: "acho que estou gostando de alguém, e é de ti que não me esquecerei", daí ser comedido, já que não se apaixona em cada esquina... move-se por uma serenidade também representada no ritmo da música. E o que o faz infeliz? O mesmo que o faz forte, e é só uma parte, porque a vida continua, não se poderia permitir que fosse o todo. E a simplicidade invade a alma do escritor, simples como o título "Giz", simples como a atitude de desenhar na calçada, simples como o instrumento utilizado, um tijolo de construção. Simples, assim todas as coisas deveriam ser.

E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém
Aparecer ou quando quero
Quando quero
Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És, parte ainda do que me faz forte
E, pra ser honesto
Só um pouquinho infeliz
Mas tudo bem
Tudo bem, tudo bem...
Lá vem, lá vem, lá vem
De novo
Acho que estou gostando de alguém
E é de ti que não me esquecerei
Tudo bem, tudo bem...
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Tudo bem, tudo bem...
Acho que estou gostando de alguém
Tudo bem, tudo bem...